Um craque na arte de viver

Nilton Santos, lateral bicampeão do mundo, resiste a doenças graves e mantém inabalável o amor pelo Botafogo

Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Desde 2007, um adversário implacável tenta, e não consegue, driblar Nilton Santos. Vítima do Mal de Alzheimer, o bicampeão mundial, de 83 anos, superou nos últimos meses uma dengue hemorrágica e uma pneumonia. Ele vive numa clínica da zona sul do Rio há dois anos e exerce marcação cerrada sobre as doenças que querem deixá-lo definitivamente fora do futebol. Também enfrenta problema de insuficiência cardíaca e precisa de acompanhamento em tempo integral. Apesar do desgaste, das doses intermináveis de remédios e da perda progressiva de memória, Nilton Santos não entrega os pontos nem perde o bom humor. "Se eu fosse jogar hoje, não serviria nem para ficar na barreira."A voz sai arranhada, quase inaudível. Mas um leve sorriso vale como um bálsamo para quem está ao lado. Interagir com o maior lateral-esquerdo de todos os tempos é sempre motivo de alegria. Maria Célia, sua inseparável companheira, alerta que muitas perguntas podem cansá-lo. Então, a rápida entrevista se transforma numa visita e as poucas palavras de Nilton Santos preenchem com leveza a suíte repleta de lembranças do Botafogo, o único clube em que atuou (de 1948 a 1964). São quadros, relógios, caneca, copo, chinelo, almofadas, tudo com o escudo do Alvinegro. Logo na entrada, um aviso em madeira talhada dá o tom de como qualquer intruso deve se comportar. "Seja bem-vindo. Não fale mal do Botafogo."Os quatro médicos de Nilton Santos e a enfermeira Marly dos Santos são botafoguenses. Tudo na vida dele gira em torno do clube. Ao ser informado da presença de uma equipe de reportagem no quarto, pergunta para o primeiro com quem se depara. "Qual o seu time?" A resposta parece desapontá-lo, embora ele reaja de modo simpático e acolhedor. "O América é o segundo de todo carioca."Nilton Santos é a figura mais querida da casa. Todas as manhãs, ele caminha por uma trilha sinuosa, entre eucaliptos e outras árvores centenárias, até o Café da clínica. Naquele pequeno e aconchegante espaço rústico, outros pacientes se encontram diariamente para falar de amenidades e, muitas vezes, de Nilton Santos. Uma bandeirinha do Botafogo, colocada em cima da geladeira, sugere que o mais famoso frequentador do Café tem lugar cativo ali. E ele tem mesmo: a mesinha ao lado do piano, sempre ocupada com um laptop aberto para que ninguém se atreva a tomar o lugar. "Se ele chega e vê alguém sentado na sua cadeirinha, faz uma cara feia e cobra da gente. Por isso, resolvi deixar o computador na mesa", conta Márcio Baraúna, que explora o espaço.Foi por causa de Nilton Santos que Garrincha se apresentou mais rapidamente ao mundo do futebol. Em 1953, Nilton Santos já era Nilton Santos e Garrincha, apenas Mané. O gênio saiu da lâmpada logo em seu primeiro treino em General Severiano. Como reserva, deixou o lateral titular atônito, sem fôlego, com suas arrancadas e dribles desconcertantes. "O cara é um monstro, tem que contratar", foi o que disse Nilton, à época, ainda sob o impacto do malabarismo daquele jovem debutante de pernas tortas.Garrincha morreu em 20 de janeiro de 1983. A amizade, o respeito e a devoção de Nilton Santos por outro gigante do futebol se perpetuaram. Desde que Garrincha saiu de campo, o lateral passou a homenageá-lo a cada 20 de janeiro, com orações e uma vela acesa. O ritual foi interrompido no ano passado, por causa do Alzheimer. A memória e o coração, neste caso, se aliaram para não deixar a chama apagar. "O Garrincha era um brincalhão, uma pessoa do bem." Teria sido melhor que Pelé? A pergunta, um tanto quanto indelicada, tem uma resposta lúcida e elegante, no estilo Nilton Santos. "Como ponta, ele foi o melhor do mundo. O Pelé, na posição dele, também foi o melhor do mundo."O ex-jogador recebe amigos de seu tempo de Botafogo. Amarildo, Cacá e Adalberto são os mais assíduos. Na clínica, não são apenas os pacientes e funcionários que adulam Nilton Santos. Nos primeiros meses de internação, um gato apelidado de "campeão" se tornou o seu xodó. O felino surgia todos os dias da mata fechada ao redor do prédio e buscava o colo de seu tutor. Conta a lenda que o único incidente entre os dois ocorreu por ciúme do gato. Certa vez, um visitante desavisado cumprimentou Nilton Santos com um tapinha nas costas e a saudação de "fala, campeão". O gato teria se irritado com a concorrência e arranhou as pernas do dono antes de sair em disparada. A história é relembrada no momento em que Nilton descansa na poltrona do quarto. Ele confirma a versão contada pelo dono da clínica, Paulo Valença, com outro sorriso.Nilton Santos dispensa a ajuda de enfermeiras para as refeições quando degusta sorvete e o seu doce preferido: a torta "Nilton Santos", uma mistura de goiabada e ricota, criada há poucos meses no Café. O restante das atividades de rotina exige a intervenção direta de outras pessoas, em especial de Maria Célia. "Ela está de parabéns, é uma guardiã, uma protetora do Nilton para todas as horas", elogia Paulo Valença, responsável por um desconto generoso no aluguel da suíte - de 40% (o valor total seria de R$ 11 mil por mês, sem contar com os medicamentos e os serviços profissionais). Quase todas as despesas do "hóspede" são pagas pelo Botafogo, que acaba de lançar uma camisa retrô do próprio Nilton Santos para ajudá-lo.Conhecido como a Enciclopédia do Futebol, cognome criado pelo locutor Waldir Amaral no Mundial de 1958, Nilton Santos tem, na medida do possível, alguma qualidade de vida. O Alzheimer é degenerativo, mas praticamente estacionou nos últimos meses. Na sua missão diária de se manter alegre e espirituoso, Nilton desafia seu principal adversário com a vontade de seguir em frente e o calor humano de quem o cerca. "Eu estou bem, eu me sinto feliz."Um cavalheiro"Minha religião é não fazer mal a ninguém e, se puder, ajudar o próximo""Eu não dou bico na bola""Naquele tempo, lateral que passasse do meio do campo era considerado maluco" (sobre as décadas de 1940 e 50)"Eu sempre gostei de atacar, mas fazia com cuidado, pois se o time tomasse um gol naquela hora eu ia parar na forca""Era hilariante o desmanche que fazia por ali" (sobre a atuação de Garrincha contra a União Soviética, em 1958)"Ele me deu um baile" (sobre o primeiro treino de Garrincha no Botafogo, em 1953)"A bola é minha vida. Foi quem me deu tudo. Nunca me traiu, nunca me bateu na canela. Sempre me obedeceu"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.