Um delivery para Kleber

Palmeiras e Botafogo produziram uma partida moldada pelos desfalques. Caio Júnior apostou no entupimento do meio de campo como forma de amenizar o desequilíbrio de uma equipe acostumada a usar Loco Abreu como referência na área e Herrera como o recuperador de bolas. Sem eles, a mudança no estilo botafoguense é radical, pois elimina o jogo aéreo e interfere decisivamente na preparação de jogadas.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

Pior, com Caio no ataque e Maicossuel se aproximando dele, havia uma certeza: o time não possuía em campo jogadores capazes de prender a bola na frente e impedir a saída dela pelos zagueiros. Por isso, o Botafogo foi escalado entre o 3-6-1 e o 4-5-1, sempre com gente demais no meio de campo.

É preciso conhecer o adversário para entender o Palmeiras e seus problemas, que começam pela contusão de Valdívia. Felipão deu o pontapé inicial no campeonato bem otimista, escalou três atacantes, tentando se aproveitar da fragilidade ofensiva do rival. O congestionamento no meio de campo botafoguense inibiu as subidas de Marcos Assunção e liquidou com o jogo de Tinga.

A bola demorava a chegar a Adriano, Kleber e Luan. Não demorou muito para Assunção preferir o atalho dos lançamentos, responsáveis por abrir uma fenda entre os volantes e os atacantes. Havia espaço demais entre eles. Estava ótimo para o Botafogo, que não parecia mesmo disposto a se arriscar, mas era pouco para o Palmeiras na estreia e mais ou menos em casa.

Felipão, então, mudou a postura da equipe. Trocou Tinga por Patrick para o segundo tempo. E assim venceu a partida. Kleber não é meia e nem atacante de área, daqueles que jogam de costas, levando trombadas dos zagueiros. Precisa da bola, de frente para gol. Bastou-lhe um bom passe, um delivery de Márcio Araújo, realizado pelo setor direito, para decidir. De frente para o bom goleiro Jefferson surgiu o golaço: corte na marcação com a perna direita e a conclusão, no ângulo, com a esquerda, aos 19 minutos.

O jogo terminou ali, Caio Junior tentou aproximar sua equipe do gol, mas sabia que sem Loco Abreu, Herrera e reforços não havia como. Ao lado de Atlético Mineiro e Vasco, o Botafogo manteve-se fora das cinco primeiras colocações da competição nacional desde a adoção dos pontos corridos, em 2003. É bom refletir sobre isso.

E por falar em sistema de disputa, desde a mudança os clubes viram aumentar suas receitas em 171%. Com uma fórmula mais estável, em que se conhece a tabela do começo ao fim, quando começa e quando termina a competição, a arrecadação do futebol brasileiro saltou de R$ 805 milhões para 2,2 bilhões. Com o mais dinheiro, e já gastando por conta do novo acordo coma TV, válido a partir a próxima temporada, é natural se esperar mais qualidade em campo.

Nesse período, a elite do futebol nacional também sofreu com as quedas de Grêmio, Corinthians, Vasco e Atlético Mineiro. A grande vantagem do novo formato é mostrar aos clubes a necessidade de se organizarem mais cedo. Melhorou, mas ainda falta muito para o profissionalismo imperar por aqui.

Mesmo com a perspectiva de avanço técnico, não se pode esperar o mesmo da estruturação do calendário, afinal temos uma Copa América em julho na Argentina, com a seleção em campo enquanto a bola não para por aqui. A Confederação Sul-Americana e a CBF cuidam de seus negócios e os clubes que se virem.

O principal produto do futebol do País ainda é tratado como um problema encravado no meio da temporada. Não é estranho que antes da primeira rodada alguns clubes já se apresentem com seus treinadores balançando, ou em plena reformulação dos seus elencos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.