Um gênio discreto

Eu já escrevi algumas vezes sobre Tostão, o mais discreto gênio do futebol. Mas hoje quero contar a história de outro gênio elegante: John Stockton, inesquecível armador de basquete, que se aposentou há alguns anos, após 19 temporadas no time menos comentado da NBA: o Utah Jazz, da pacata Salt Lake City. Quando chegou à liga principal, em plena era de armadores imensos como seus egos, o jovem que defendeu a desconhecida Universidade de Gonzaga foi considerado frágil, com seu 1,85m de altura. Ninguém acreditava que aquele branquelo tímido poderia triunfar num mundo de falastrões gigantes de ébano. Estavam enganados. Stockton ganhou dois ouros olímpicos; foi considerado um dos 50 maiores da história da NBA; participou dez vezes do All-Star Game; estabeleceu o recorde de assistências em uma partida de playoff; foi o líder de assistências da liga por nove anos seguidos; quebrou o recorde de assistências numa mesma temporada; foi um dos sete únicos jogadores a atuar na liga com mais de 41 anos; foi escolhido para a seleção da NBA 11 vezes; raramente se contundiu, conseguindo a façanha de atuar em 609 partidas consecutivas entre 1990 e 97; e é detentor dos formidáveis recordes de assistências na carreira com 15.806 (Magic Johnson vem em 3º, com 9.921) e de roubadas de bola com 3.265 (Michael Jordan é o 2º, com 2.514). Graças às assistências, o parceiro Karl Malone se consagrou como um dos três maiores cestinhas da história. Após fazer a última jogada - assistência para Malone, claro -, Stockton foi substituído no fim do duelo com o Sacramento Kings, que marcou a eliminação do Jazz dos playoffs de 2003. Terminado o jogo, guardou as coisas numa sacola e comentou com um assessor do clube que havia sido sua última partida. Disse e saiu de fininho. O assessor espalhou a notícia e os jornalistas invadiram o vestiário em busca de comentários emocionados. Em vão. Stockton, que jamais fizera declarações dignas de manchete, manteve-se lacônico. Não jogaria mais. Mesmo sendo ainda um dos cinco melhores da liga em assistências, iria para casa cuidar da mulher e dos seis filhos. Ponto final. Nada de homenagens, de conferências de imprensa, de estádios repletos de fãs e lenços brancos. Certa vez, Stockton estava entrando num ginásio de treino quando um funcionário do local comentou: "Não sei se é fã de basquete, rapaz, mas aquele cara ali é o Karl Malone." O craque fingiu espanto e conversou com o funcionário sobre as virtudes de Malone, sem jamais dizer que também ele era jogador da NBA. Atitudes assim correspondiam ao seu estilo em quadra. Ao contrário de outros armadores, não passava a bola por trás das costas ou a fazia quicar por entre as pernas. Também não realizava passes com os olhos fechados ou mirando para o lado oposto. Apenas servia o companheiro mais bem posicionado, da melhor forma possível. Seu recorde impressionante foi construído sem alegorias e adereços. Um sujeito desses realmente não rendia notícias. Stockton preferia deixar que seus feitos falassem por ele. É como deve ser. Apesar de ter levado o time aos playoffs em todas as temporadas, jamais foi campeão. Nas duas vezes em que chegou à final, topou com o invencível Chicago Bulls de Michael Jordan. Teve inúmeras propostas para jogar numa equipe de ponta e conseguir o sonhado título. Mas se dizia grato ao Jazz e continuou no time até se aposentar. Karl Malone, depois de 18 temporadas em Utah, foi para Los Angeles em busca de um anel de campeão. Fracassou. Stockton sempre soube que não precisava daquele anel. E esse talvez seja o mais gigantesco feito de sua carreira.

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