Um gole de esperança

Tirar férias sem viajar por mais de quatro dias, na virada de ano, é pedir para entrar em crise de abstinência ludopédica. Não sou dos que acham que futebol é como pizza, que até ruim cai bem, mas senti falta de ver jogo toda quarta à noite e todo domingo à tarde, pelo menos, e fiquei ansioso pelo início dos campeonatos estaduais, farto de reportagens sobre o vaivém do mercado de contratações. Ver jogos da própria terra é insubstituível. Ainda assim, minha sede por bom futebol foi parcialmente atenuada pelas rodadas do Campeonato Espanhol e por uma gigantesca pulga chamada Lionel Messi, que dá tudo que o futebol quer: dribles rápidos, passes inteligentes e, sobretudo, muitos e belos gols. Ele é cada vez mais completo e mais goleador, como todo fora de série deve ser.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

Foi por esses gols que a Fifa, com justiça, quebrou uma tradição e não premiou o melhor jogador da Copa, embora Messi tenha feito uma boa Copa sem gols. Em 2010, não teve para ninguém. Com Xavi, Iniesta e Daniel Alves, o Barcelona é mais uma vez a demonstração de que um futebol vitorioso é, na maioria das vezes, o que valoriza o talento individual e o espírito de equipe, não o que fica atrás, só batendo e jamais ousando. E Messi é a mais perfeita tradução desse futebol que busca o gol o tempo todo, sabendo a hora certa de passar ou driblar, segurar ou chutar; pode ver que ele não só faz muito mais gols hoje em dia, aparecendo na área como centroavante em alguns momentos, mas também faz mais assistências, lançando Villa ou Pedro às costas dos zagueiros.

O outro assunto do período foi Ronaldinho Gaúcho, contratado pelo Flamengo. Como Messi, ele teve seus melhores anos no Barcelona, de 2004 e 2005, justamente quando mais fez gols em sua carreira. Mas dizer, como se tem dito tanto, que a volta dele ao Brasil mostra "o poder de investimento dos nossos clubes" é querer se enganar. Com exceção dele (e talvez de Thiago Neves no mesmo Flamengo, embora nunca tenha se tornado o craque que poderia ser), a intertemporada foi fraca em termos de aquisições no Brasil todo. Quanto a seu caso específico, é importante lembrar que ele tem apenas 30 anos e - apesar de alguns meses em que parecia ter ressuscitado parte de seu talento - estava na reserva do Milan; logo, esse retorno precoce soa mais a retrocesso. Isso sem falar na forma pouco ética em que, de novo, uma transferência sua foi conduzida.

Mas quem não está curioso para vê-lo? Talvez por algum tempo a massa possa motivá-lo, e se ele jogar 50% do que sabe já vai fazer a diferença que se espera. Sua volta foi claramente inspirada no exemplo de Ronaldo, que vem dando resultado ao Corinthians dentro de campo (até mesmo nas rodadas finais do ano passado) e fora (com mais de R$ 50 milhões de patrocínio). É mais jovem e não teve as mesmas lesões graves. Por outro lado, não chega a um time já estruturado e não tem igual percepção para os momentos em que deve ser decisivo - tanto é que, na Itália, apareceu muito mais contra times pequenos, como deverá acontecer no Campeonato Carioca. No entanto, se o treinador, Luxemburgo, o escalar mais perto da área, tem tudo para não frustrar a nação rubro-negra. Um craque não pode viver apenas de malabarismos e assistências.

Quem não frustrou uma nação, a brasileira, foi Neymar no primeiro jogo da seleção sub-20, contra o Paraguai. Mais uma vez, fazer gols é fundamental - e ele fez nada menos do que quatro, dois de extrema classe (um com corte no zagueiro, o outro de cobertura de esquerda). Às vezes ainda é fominha e briguento demais, mas as lições do ano passado parecem ter sido aprendidas. Ele agora se concentra em desmoralizar o adversário por meio de jogadas encaixadas na narrativa da partida. Um Neymar, claro, não faz verão; ainda estamos longe de ver a entressafra acabar, e não por acaso os ídolos de 2002 continuam dominando a cena. Mas, depois de tantas semanas de abstinência, a goleada dele foi um gole de esperança.

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