Um herói com caráter

A pressão sempre esteve presente no dia a dia da carreira, marcada por dúvidas em relação ao futuro a cada contusão: respostas com classe

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ronaldo ficou muito emocionado e chorou em sua entrevista de despedida, mas o final de sua carreira não foi nada a lamentar. Mais uma vez, ele deu seu recado com elegância, lembrando brevemente seu histórico de lesões e o hipotireoidismo que já tinha sido revelado em 2007, no Milan, e agradeceu até mesmo aos críticos, que lhe deram força para responder em campo. Enquanto ele pôde responder, enquanto as dores e as ausências não o impediram de ser decisivo com a bola, levou a carreira adiante, como raros atletas conseguiriam. No momento em que perdeu as últimas motivações, decidiu antecipar a aposentadoria que já estava anunciada. Isso tudo é, no mínimo, digno - muito mais digno do que tantas acusações feitas a ele desde 1998.

Em dois anos de Corinthians, Ronaldo foi protagonista na conquista de dois títulos, fez 35 gols - alguns que serão lembrados por muito tempo - e ajudou o clube a se modernizar. Melhor que isso, só se tivesse conquistado a Libertadores, que seria a primeira numa história centenária. Mas tratar esse par de anos como algo que mancha ou diminui a biografia do Fenômeno não faz sentido - ainda mais vindo de pessoas que diziam que ele teria no Corinthians o mesmo fim de Garrincha. Ronaldo nunca foi parar no Usbequistão; nunca faltou ao treino ou se escondeu nas decisões; nunca foi parar nem sequer no banco de reservas. Quantos grandes craques não tiveram queda de rendimento nos últimos anos? E quantos saíram imediatamente depois de título importante?

Não se trata de não ver seus defeitos, os momentos de enfado e descuido que poderiam ter sido evitados, a dificuldade de cabecear, etc. Mas se trata de reconhecer que ele escreveu uma bela história, muitas vezes solitário como só um ídolo pode ficar, e mostrou sempre bom caráter. Em 2001, quando se recuperava no Rio e todos o davam como "acabado" - jamais como alguém que voltaria e faria oito gols numa Copa do Mundo -, lá estava ele, dando duro, suportando tudo, tratando todos com simpatia e bom humor. Em 2008, depois de romper o outro tendão patelar, fato inédito na história do futebol, ele poderia ter se aposentado, mas todo dia ia ao Flamengo, treinava em aparelhos defasados, tomava banho frio. À noite, era acordado pelo fisioterapeuta Bruno Mazziotti dobrando sua perna com força para ganhar um grau de ângulo mais.

Ou antes ainda: quantos jogadores suportariam dezenas de milhões de brasileiros decretando que ele tinha "amarelado" diante da França em 1998? Quantos conseguiriam atravessar aquilo sem acusar colegas, técnico ou dirigentes ou sem desistir? Ele nunca pôs a culpa em ninguém. E poderia, afinal havia outros dez atletas em campo, e mesmo o escalado Edmundo entrou depois e nada fez. Ronaldo foi criticado porque quis jogar. Quatro anos depois, fez dois gols na final contra a Alemanha. Cadê o amarelão? Foi para o Real Madrid e fez mais uma centena deles, embora alguns digam que "não jogou nada" depois de 2002. Pela seleção em 2004, no Mineirão, fez três gols na Argentina; o tempo passou e o Brasil ainda não viu nada parecido.

Desde ali, o corpo foi perdendo mobilidade e equilíbrio muscular. De 2005 em diante, ele não conseguiu mais fazer oito partidas seguidas; praticamente jogava um mês e parava outros dois. Dos 18 anos de carreira, aliás, apenas em metade deles conseguiu temporada integral. Uma das consequências foi a alta exposição de sua vida privada, que ele mesmo promoveu em alguns momentos, como ao levar namorada para a concentração, e que em outros o mostrava fumando e bebendo. Já as coisas boas não viram notícia, como o carinho com a família, o apoio aos colegas, a conversa divertida, a curiosidade herdada do pai (embora não tenha se tornado um leitor de livros como ele), as iniciativas sociais como a que anunciou ontem (Fundação Criando Fenômenos).

Amor irrestrito. Também seu amor pelo futebol nem sempre transparecia, como transpareceu num restaurante do Rio, no final de 2008. Ao ver na televisão a torcida do Corinthians gritando "Aqui tem um bando de loucos", Ronaldo comentou: "Essa torcida é incrível".

Hoje, a julgar pelos milhares de comentários e tweets postados desde domingo, é a vez de todas as torcidas dizerem: "Sua carreira é que foi incrível". Ninguém, exceto os chatos, está chorando pelo que ele não fez, mas por saudade do que fez e poucos igualaram.

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