Kirby Lee / USA Today Sports
Kirby Lee / USA Today Sports

Um jogador gay da NFL rompeu uma barreira. Outros o acompanharão?

O número de atletas da NFL nas maiores ligas masculinas que afirmam publicamente ser gays é bem menor do nas femininas. O anúncio feito por Carl Nassib vai mudar isso?

Emmanuel Morgan, The New York Times

28 de junho de 2021 | 20h00

Postagens de felicitações tomaram as redes sociais na semana passada quando Carl Nassib, do Las Vegas Raiders, anunciou no Instagram que é gay, se tornando o primeiro atleta em atividade da NFL a se expor publicamente.

Uniformes e camisetas com o seu nome foram os artigos mais vendidos entre os jogadores da liga, de acordo com a Fanatics, parceira comercial da NFL. Estrelas como Saquon Back, do New York Giants – que jogou com Nassif na Universidade da Pensilvânia – e J.J. Watt, do Arizona Cardinals, rapidamente expressaram seu apoio a Nassib no Twitter. Organizações de defesa também elogiaram sua declaração, qualificando-a como monumental.

“Penso que as pessoas verão o que vimos observando há anos, ou seja, que no mundo esportivo há muito mais coisa sendo aceita do que as pessoas dão crédito”, disse Cyd Zeigler, cofundador do website Outsports, que faz cobertura de atletas LGBTQ e questões ligadas a esportes.

Nassib disse em sua postagem ter se agonizado quanto à decisão de falar publicamente sobre sua sexualidade depois de ter guardado isso durante 15 anos. O fato de ele ser o único jogador gay em atividade pertencente a uma das quatro maiores ligas americanas, sugere que ainda é grande a barreira que os atletas se deparam para admitirem abertamente uma identidade sexual ou de gênero que não condiz com as tradicionalmente toleradas nos vestiários.

Outros atletas gays que afirmaram publicamente ser gays disseram ter se sentido pressionados para sufocar isso – e ainda continuam apesar de correntes na sociedade que aceitam - por razões simples, mas poderosamente proibitivas. Nos vestiários, nos campos, nas quadras, os atletas masculinos têm de assumir padrões heteronormativos de masculinidade.

“Acho que são os homens e a cultura do machismo no esporte profissional que inibem aqueles que se identificam como gays, bissexuais ou queer de virem a público”, disse Richard Lapchick, diretor do Instituto para a Diversidade e Ética no Esporte.

Mas alguns atletas se aventuraram a isso não obstante a inquietação pela sua segurança e a reação contrária dos colegas de equipe e dos fãs. Em fevereiro de 2014, a NBA se tornou a primeira das quatro maiores ligas esportivas americanas a ter um jogador abertamente gay, quando Jason Collins, que publicamente declarou ser gay, ingressou no Brooklyn Nets. Ele deixou de jogar no final do ano passado.

No futebol americano, Michael Sam, da Universidade de Missouri, anunciou que era gay semanas antes de Collins assinar com o Brooklyn Nets. Os Rams selecionaram-no na sétima e última rodada do draft e um exultante Michael Sam gritou e beijou seu namorado diante das câmeras de TV nacional numa das mais visíveis mostras de sexualidade masculina gay na história dos esportes.

Mas os Rams cortaram Sam antes do final da pré-temporada. O Dallas Cowboys depois contratou Sam, mas ele não jogou na temporada regular. Ele se aposentou do esporte em 2015.

A oportunidade para outros atletas da NFL revelarem sua identidade sexual enquanto ainda em atividade diminuiu quando a carreira de Sam acabou antes de começar. O anúncio feito por Nassib pode ser mais aceito – pelo menos publicamente – por seus colegas porque ele já é um veterano no qual sua equipe tem muita confiança.

Nassib já jogou cinco temporadas na NFL e é um jogador discreto ocupando uma posição não glamourosa, mas importante, no time. Selecionado no draft pelo Cleveland Browns, ele apareceu em 73 jogos, em 37 deles registrou 143 tackles.

O rótulo de “mentalmente confuso” tem sido há muito tempo um estigma atribuído aos jogadores que defendem uma visão ou identidade distinta daquela dos seus colegas, mas existe um lado positivo no caso de Nassib, disse Zeigler. Sua visibilidade oferece mais chances de serem discutidos assuntos ligados a atletas LGBTQ.

“Muitas pessoas falarão sobre isto nos próximos dias, e novamente quando ele se apresentar no seu primeiro jogo e depois quando interceptar a bola e cruzar a linha do gol”, disse Zeigler.

As equipes profissionais masculinas nos Estados Unidos estão atrasadas em relação às femininas no caso de estrelas LGBTQ nas equipes ou em esportes individuais que publicamente se identificaram e foram elogiadas. Estrelas da WNBA como Diana Taurasi, Brittney Griner e Elena Delle Donne são algumas jogadoras que se declararam lésbicas. Layshia Clarendon, declarou ser transgénero e não binária em janeiro e foi a primeira jogadora da liga a realizar uma cirurgia ainda em atividade.

Megan Rapinoe, estrela da equipe nacional de futebol feminino dos Estados Unidos, noiva de Sue Bird, da WNBA, disse depois de um jogo na Copa do Mundo em 2019 que “você não vence um campeonato sem gays no seu time”. A Copa do Mundo daquele ano incluiu mais de três dezenas de jogadoras e técnicos gays, e a equipe vencedora dos Estados Unidos tinha pelo menos alguns entre seus membros. No UFC, a brasileira Amanda Nunes declarou publicamente ser lésbica.

Ao contrário de muitos atletas masculinos LGBTQ, suas colegas nas ligas esportivas femininas têm desfrutado de uma maior aceitação do público e das suas colegas nos últimos anos. Rapinoe e Bird estão entre as atletas mais populares e mais vendáveis em termos de publicidade no mundo. Na última luta de Amanda Nunes, ela trouxe seu filho e a noiva para o ringue depois de derrotar sua oponente.

Há sinais de uma maior aceitação das pessoas LGBTQ pelos americanos, uma mudança cultural que deve incentivar outros atletas gays, bissexuais e queer a se declararem publicamente. Este ano, 70% dos que responderam a uma pesquisa Gallup disseram apoiar o casamento de pessoas do mesmo sexo, um aumento de 10% em comparação com 2015, quando a Suprema Corte decidiu que todos os Estados tinham de reconhecer essas uniões. Quase 6% dos entrevistados numa pesquisa Gallup em 2020 se identificaram como LGBTQ, um aumento de 1% em relação a 2017.

Pode levar mais tempo para essas grandes mudanças acabarem com as atitudes homofóbicas dentro das ligas esportivas masculinas, particularmente na NFL. Os jogadores já foram alvo antes de comentários ofensivos, alguns depois de um atleta conhecido se identificar como gay.

Mike Wallace, que jogou no Miami Dolphins, fez uma postagem no Twitter após o anúncio de Collins em 2013, dizendo que não compreendia porque “com todas essas belas mulheres no mundo e esses sujeitos vão procurar um outro homem”. Mais tarde, ele se desculpou pela postagem e a deletou.

Lapchick, que tem estudado a questão de gênero e as práticas de contratação nas maiores ligas esportivas há 25 anos, vem observando mudanças culturais no campo do futebol. “Se você me dissesse há cinco anos que a NFL e as equipes usariam o coração nas suas postagens, eu não previa isso. “Especialmente entre os homens, havia um temor de se expor publicamente e ele rompeu com esse medo. Acho que a reação que observamos vai mostrar para outros jogadores da NFL que eles também podem se expor”. / Tradução de Terezinha Martino

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