Um palmo acima dos outros

Depois da derrota, Oswaldo de Oliveira disse: "o Cruzeiro está um palmo acima de todos". Não sei como mediu, mas, a meu ver, o técnico do Santos subestimou a diferença. O Cruzeiro, de Marcelo Oliveira (não são parentes), parece vários palmos, ou metros, acima dos outros times brasileiros. Talvez o que mais se aproxime dele, e não apenas pela posição na tabela, seja o Internacional. Os outros parecem francamente anacrônicos. Antiquados em relação ao que vimos aqui durante a Copa. Nada que surpreenda muito quem acompanha minimamente o futebol europeu.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2014 | 02h04

Fazendo um looping no tempo, lembro do Cruzeiro de 2003, o de Vanderley Luxemburgo, com Alex no auge. Aquele time voava! Foi o primeiro campeão na fase dos pontos corridos, e a perseguição do segundo colocado, o Santos, de Diego e Robinho, campeão no ano anterior, foi empolgante. Era um jogaço atrás do outro. Mas não tinha para ninguém naquele ano. O Cruzeiro foi campeão com 102 gols e levou a tríplice coroa - Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Era um time e tanto. Não me lembro de ninguém a dizer que jogava como os europeus. Jogava, sim, o bom futebol brasileiro de sempre. Assim como o Santos havia jogado futebol brasileiro em 2002, jogava em 2003 e jogaria em 2004, ao conquistar de novo o campeonato nacional.

Agora, como se diz, o "parâmetro" é outro. Com o futebol brasileiro na pior e mais desprestigiado que político em fim de mandato, quando um time joga bem, acima dos outros, dizemos que joga ao estilo europeu.

Dizem mesmo que o Cruzeiro joga como a Alemanha, a atual campeã do mundo: compacto, com toque de bola refinado e contra-ataques mortais. Pode até ser. Mas o fato é que já jogava assim desde o ano passado, quando foi campeão. Não inventou esse estilo de uma hora para outra, ou por inspiração da Copa do Mundo. É até muito possível, e provável, que Marcelo seja observador atento do futebol do mundo. Todos os técnicos deveriam ser. Aliás, profissionais de qualquer área se beneficiam ao acompanhar o trabalho de colegas que estejam se destacando. Seja na área médica, jornalística, científica ou esportiva, temos de observar os que levam seu métier ao mais alto nível de excelência.

Isso não quer dizer que devamos ou possamos copiá-los. Em geral, cópia não dá certo. Fica falsa. Por vários motivos, o principal deles porque culturas e condições de trabalho são diferentes. No caso do futebol, há outra especificidade. Entre os anos 1920 e 1930, o Brasil era claramente inferior aos vizinhos argentinos e uruguaios, para não falar dos europeus. Fomos melhorando muito rapidamente, até criar uma escola de futebol vencedora e que refletia nossa maneira de ser. Já em 1938, o futebol brasileiro, que contava com nomes como Domingos Da Guia e Leônidas da Silva, era respeitado. Mas foi apenas em 1958 que esse reconhecimento se deu com a primeira conquista de Copa do Mundo. Começava a era Pelé, que se estenderia até 1970, fechando em alto estilo a longa hegemonia brasileira. De quatro Copas, ganhou três. Criou um estilo, o futebol-arte, e o marcou com a assinatura do maior craque de todos os tempos.

Isso acabou. Ou melhor, entrou para a História, de onde ninguém o tira. Mas a realidade hoje é outra. O futebol globalizou-se, os craques são atraídos como nunca pelo dinheiro europeu e os campeonatos regionais dos países periféricos passaram a viver à míngua. Resumindo: não dá para imitá-los porque não temos o fundamental, que eles têm: o dindim, a grana, o cacau, a erva. O capital. Esse é o principal aditivo e diferencial do futebol europeu. Por aqui, nos viramos com mixarias. Relativamente falando, é claro.

O Cruzeiro não precisa imitar ninguém. É, simplesmente, um time bem entrosado, com bons jogadores e ótimo esquema de jogo. Ofensivo, cria chances e as aproveita. Nada há de alemão nisso. É apenas futebol bem jogado. E tem estrutura. Ontem, no final da partida, Marcelo fez duas substituições e colocou jogadores do nível de Dagoberto e Julio Baptista em campo. Essa é a diferença, e mede bem mais de um palmo.

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