Um pedido

Prezados senhores do Comitê Olímpico Brasileiro:

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h04

Sei que o momento pode não ser o mais oportuno, mas estou me candidatando a uma vaga como "observador" desse Comitê. Li, neste mesmo jornal, quinta feira, dia 26, que cerca de 200 "observadores" do Rio estavam em Londres "trabalhando" na ocasião em que ocorreu o recente escândalo.

Não sei se tenho aptidões necessárias ao cargo, tanto mais porque não tenho a mais vaga ideia do que faz um "observador". Aplicando à palavra seu significado literal, observador é alguém que olha atentamente. Pois bem, nesse caso me acho apto.

Uma das provas que observo as coisas de perto e no detalhe, é o próprio fato dessa notícia ter me chamado a atenção, uma vez que era uma frase perdida numa matéria muito mais interessante e substanciosa sobre o escândalo do furto dos arquivos londrinos.

Às vezes, porém, fico em dúvida se foi só o cargo de "observador" que me decidiu ou se foi também a quantidade: 200 pessoas. Sim, 200 pessoas apenas na qualidade de observadores, foram transportadas do Rio até Londres, alojadas em hotéis, presumo, e, naturalmente, pagas.

Gostaria aqui de colocar uma pergunta, esperando que não seja um problema para minha admissão. Os jornais dizem que dez ou pouco mais de dez pessoas trabalhavam na obtenção daqueles arquivos de embaraçosa lembrança.

Muito bem, se as informações mais importantes da organização da Olimpíada estavam nos ultra cobiçados dados, o que faziam então as outras mais de 180 pessoas? De que se ocupavam os mais de 180 outros "observadores"?

São esses que eu invejo, os quase 180! É o cargo deles que pretendo. Não paira sobre eles a menor suspeita do escândalo, são apenas um número perdido numa notícia de jornal. Mas quem são? Por que eu nunca sou lembrado quando se trata de uma boquinha dessas?

Como os invejo! Como me vejo flanando por Londres, despreocupado, tudo pago, me perdendo por pelo menos três dias no magnífico British Museum, e mais alguns outros pela Tate Galery, descansando em frente da casa de número 3 da Bolton Street, visitando as ruas de Bloosmsbury, "observando" o lugar que um dia abrigou a Hogarth Press e o casal que a fundou, passear pela plataforma de Charing Cross, imaginando o bom dr. Watson consultando aflito o horário dos trens, e de quebra talvez dar uma sorte e encontrar lugar numa peça com "Sir" DereK Jacobi ou "Dame" Maggie Smith!

Claro que esse seria meu itinerário, outros "observadores" talvez tivessem empregado seu tempo de outro modo. Londres tem tantos atrativos!

Finalizo com um protesto: por que os observadores "saíram do Rio?" Por que S.Paulo, em situações como essa, está sempre em segundo plano?Fiquem sabendo, senhores do COB, que aqui em S.Paulo também estamos preparados. Há muita gente aqui com passaporte em ordem e pronta a passear por Londres com o mesmo entusiasmo de qualquer outro brasileiro.

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