Martin Hanslmayr/Red Bull Content via The New York
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Um prêmio de escalada que pode ser o último do premiado

O Piolet d’Or, ou Piolet de Ouro, é o maior prêmio da escalada alpina. Mas se é uma honraria ou um incentivo ao risco, isto é matéria de muita discussão

Michael Levy, The New York Times

03 de dezembro de 2021 | 20h00

No alto do Lunag Ri, no Nepal, o alpinista austríaco David Lama começou a se preocupar com a possibilidade de perder os dedos do pé. O frio na montanha de 6900 metros era mais forte que qualquer coisa que ele já havia experimentado. Tentando escalá-la sozinho em 2018, Lama poderia ter morrido congelado se ficasse preso numa tempestade ou se ferisse numa queda. Um resgate seria quase impossível.

Os dedos de Lama não chegaram a congelar por completo e ele continuou até o topo da montanha. A imagem de sua silhueta no cume é o tipo de coisa com que os alpinistas sonham. Depois da subida, ele disse que se aproximara de seu limite de tolerância ao risco. Por sua escalada, Lama ganhou um Piolet d’Or - o Piolet ou Machadinha de Ouro -, o maior prêmio do alpinismo.

Mas Lama não estava presente para receber o prêmio na cerimônia em Ladek-Zdroj, Polônia, em setembro de 2019. Ele tinha morrido cinco meses antes, no meio de uma avalanche, enquanto tentava escalar uma nova rota no perigoso Pico Howse das Montanhas Rochosas canadenses. Seus dois companheiros, o americano Jess Roskelley e o austríaco Hansjorg Auer, também morreram no acidente. Auer também foi homenageado com um Piolet d’Or na Polônia, pela escalada solo do Lupghar Sar West do Paquistão (7157 metros de altitude).

A dissonância entre suas mortes e a celebração de suas arriscadas ascensões solo levantou uma questão incômoda sobre o Piolet d’Or: será que escolher vencedores - e, portanto, perdedores - no montanhismo é uma boa ideia? A escalada alpina de elite já parece bem perigosa, a morte de seus praticantes é um problema recorrente. Mas será que distribuir prêmios não reforça uma doentia cultura de risco naquilo que já é uma busca potencialmente mortal?

Entregar os prêmios a Lama e Auer foi “dar uma festa regada a bebida para alguém que morreu de cirrose”, disse o argentino-americano Rolando Garibotti, 50 anos, alpinista há mais de três décadas, durante um telefonema de Innsbruck, na Áustria. Garibotti é um dos vários escaladores importantes que se indagam sobre as implicações de distribuir prêmios para escaladas.

“Há muitas escaladas alpinas a que as pessoas mal sobrevivem”, disse Garibotti. “E nenhuma dessas pessoas e escaladas, na minha opinião, deve se qualificar para o Piolet d’Or. Se quisermos criar uma cultura em que morram menos dos maiores alpinistas, precisamos fazer algumas mudanças”.

O comentário de Garibotti sobre a morte dos grandes alpinistas não é exagero: desde 2008, morreram nas montanhas pelo menos sete vencedores do Piolet d’Or, entre eles o alpinista suíço Ueli Steck.

O Piolet d’Or de 2021, no 30º aniversário da cerimônia, aconteceu neste fim de semana, em Briançon, um centro de escalada alpina na França. O evento contou com troféus brilhantes, discursos de aceitação e ovações de pé. As subidas premiadas este ano tiveram maiores margens de segurança do que as de Lama e Auer. Mas o espectro continua pairando no ar.

Christian Trommsdorff, organizador do Piolet d’Or e também alpinista, disse durante um telefonema da Grécia: “O risco não é um fator no processo de seleção” dos vencedores, o que significa que escaladas consideradas perigosas demais não entram na avaliação. “Mas faz parte do jogo”, disse ele, referindo-se aos riscos intrínsecos ao alpinismo.

O Piolet d’Or foi fundado em 1992 na França como uma colaboração entre a revista Montagnes e o Group de Haute Montagne, do qual Trommsdorff é presidente. Riscos à parte, ao longo dos anos se acenderam debates sobre como avaliar as escaladas, pois sempre há algo de subjetivo, visto que os alpinistas costumam debater o “estilo” ou a maneira como se chega ao cume.

As coisas chegaram ao auge em 2007, quando o alpinista esloveno Marko Prezelj se recusou a aceitar o Piolet d’Or. Mais tarde naquele ano, ele escreveu um artigo no American Alpine Journal argumentando que os prêmios fomentam um ambiente no qual os escaladores são “encorajados a esticar demais seus limites, a fazer uso de substâncias que aumentam o desempenho e a correr riscos insensatos”.

Então, em 2009, o Piolet d’Or apresentou um novo formato, homenageando várias escaladas, todas anunciadas meses antes da cerimônia. Isso satisfez muitos dos críticos mais vocais, mas para outros, como Garibotti, não corrigiu os problemas fundamentais a respeito do risco.

Garibotti conhece o perigo de perto. Pela sua contagem, mais de trinta pessoas com quem já amarrou suas cordas morreram escalando. O Piolet d’Or tentou premiar Garibotti duas vezes, uma vez em 2006, por uma nova rota no Cerro Torre, na Patagônia, e outra em 2009, pela a primeira travessia de todo o maciço do Cerro Torre. Ele recusou as duas.

O mais chocante foi quem o júri decidiu homenagear em 1998: uma equipe russa que fizera a primeira escalada da face oeste do pico Makalu no Himalaia em 1997. Dois dos escaladores da expedição morreram no processo. Os organizadores introduziram um novo critério após as reações negativas ao prêmio daquele ano, exigindo, de acordo com Trommsdorff, “que os alpinistas têm que voltar inteiros”.

O problema, na opinião de Garibotti, não é que os prêmios incentivem os escaladores a correr mais riscos, mas que, ao premiar escaladas arriscadas, eles validam o comportamento arriscado. “Se há reconhecimento às escaladas imprudentes, haverá escaladas ainda mais imprudentes”, disse ele.

Depois de ganhar um Piolet d’Or em 2019 com seus companheiros de equipe eslovenos, Ales Cesen e Luka Strazar, o alpinista britânico Tom Livingstone escreveu um ensaio em seu site dizendo que o prêmio “afeta meu ego humano” de maneiras preocupantes.

“No final de cada run-out”, uma seção de escalada pouco protegida, que pode resultar em quedas perigosas, “já tenho um diabinho no meu ombro sussurrando, ‘uh oh, você vai ficar famoso!’”, Livingstone escreveu. “Não quero que outro diabinho me ofereça um troféu de ouro”. Ele aceitou o prêmio apenas porque seus companheiros quiseram.

Para muitos escaladores, o perigo é uma grande parte do apelo do esporte, claro. “Temos que reconhecer que, no montanhismo tradicional, a morte é uma possibilidade”, disse Reinhold Messner, 77 anos, um dos alpinistas mais laureados do século passado. “Se não for uma possibilidade, não é montanhismo. É a arte de sobreviver. É uma arte”.

Embora Messner tenha aceitado um Piolet d’Or pelo conjunto da obra em 2010, categoria criada um ano antes, ele também acha que os prêmios de escalada são redutores. Em 1988, ele recusou uma medalha olímpica honorária por se tornar a primeira pessoa a atingir todos os 14 picos mundiais de mais de 8000 metros.

“Sempre fui contra a ideia de que a escalada tradicional seja uma competição”, disse Messner. “Em geral, não sou muito de medalhas. O prêmio vitalício - é uma questão de respeito”.

Apesar dos detratores, muitos alpinistas importantes são a favor do Piolet d’Or.

O francês Symon Welfringer, 27 anos, vencedor de uma das categorias do Piolet d’Or deste ano por sua primeira escalada da face sul do Sani Pakkush, no Paquistão (6950 metros), com seu compatriota Pierrick Fine, disse que o prêmio foi um de seus “principais objetivos para começar a fazer expedições” na Cordilheira Maior. “Não temos muito reconhecimento no alpinismo”, explicou Welfringer. “Hoje em dia você tem as redes sociais, mas não é fácil fazer as pessoas entenderem como é difícil e comprometedor abrir uma nova trilha”.

Messner concorda que o reconhecimento ajuda os não escaladores a compreender as realizações dos melhores alpinistas e funciona como um controle sobre os “escaladores charlatões que só parecem grandes aventureiros” nas fotos do Instagram.

Uisdean Hawthorn, alpinista escocês de 28 anos, recebeu um Piolet d’Or este ano com seu parceiro, Ethan Berman, por sua nova rota na Face do Imperador do Monte Robson, no Canadá. “Acho que é uma coisa boa”, disse Hawthorn. “Essa cerimônia reúne os escaladores para uma discussão. E acho que qualquer coisa que faça isso é positiva”.

Hawthorn duvida que a maioria dos alpinistas veja o Piolet d’Or como um elemento motivador, como Welfringer fez em sua escalada. Ele comparou escaladores a cientistas que fazem anos de pesquisa num campo desconhecido: “Eles não pensam, ‘se eu fizer isso, vou ganhar um Prêmio Nobel’”, disse Hawthorn. “Eles só gostam desse nicho estranho, gostam do que fazem”.

Trommsdorff concorda. “Não estamos pressionando as pessoas a correr riscos - você não precisa do Piolet d’Or para correr riscos”, disse ele. E, disse Trommsdorff, o Piolet d’Or removeu especificamente a menção a vencedores e perdedores a partir da reformulação de 2009.

Muitos, como Hawthorn, gostaram da reformulação. “Por uma perspectiva negativa, você pode ver tudo isso como um pretexto para premiar a melhor escalada do alpinismo, mas eu realmente não vejo as coisas desse jeito. Acho que é mais uma celebração do alpinismo. Se não fosse um prêmio julgado pelos pares, seria completamente diferente”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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