Um símbolo do velho e bom futebol

Nesta semana participei de um debate no qual meu companheiro era o Dr. Sócrates. Na verdade a minha participação se limitou a pouco mais do que ouvir o doutor falar. O que foi ótimo, tanto para mim quanto para a plateia.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Sócrates parou de jogar já faz bastante tempo. Não aparece em comerciais de televisão, e que eu saiba, nem em encontros sociais. Faz parte do Cartão Verde da TV Cultura, além de escrever em jornais e revistas. Esse resumo pode dar a impressão de que Sócrates é apenas um ex-jogador como tantos outros que escrevem e falam sobre futebol com bastante sucesso. Não é.

O que me surpreendeu no tal debate é que a plateia não parecia considerar o doutor um ex-jogador. Ao contrário, dava a impressão de um craque em plena atividade. Parecia que ele ainda estava em campo. Havia até mesmo crianças e pessoas muito jovens que certamente não o tinham visto jogar, e duvido que o leiam com muita frequência.

Mas Sócrates, completamente à vontade, trazia muitas vezes os anos oitenta para dentro da sala e essa década desaparecida assumia uma inexplicável atualidade, como se de repente os personagens e os fatos narrados por ele ainda existissem. Milagrosamente, o ontem se transformava em hoje, e a plateia aceitava isso com naturalidade, se divertia e fazia perguntas, como se datas não importassem mais.

Como se dá esse fenômeno? Como um ex-craque reaparece diante de sua torcida e é saudado dessa maneira, como se nunca a tivesse abandonado? Não sei bem as razões. Só sei o que vi. Vi Sócrates entrar como qualquer pessoa, sem guarda costas, sem aparato, misturando-se imediatamente com as pessoas presentes, falando com todos, sem nenhuma falsa naturalidade, sem nenhuma intenção de agradar de qualquer maneira, mostrando apenas o que era realmente.

Essa atitude passa imediatamente para os espectadores a convicção de que Sócrates é um deles. Todos sabem, no entanto, que ele é especial. Que é médico, que foi um grande craque, que ganhou dinheiro, que jogou na Itália e, no entanto, alguma coisa os une na essência, no fundo.

Reconhecem nele talvez uma espécie de jogador que não existe mais, o craque humano, com os defeitos e virtudes de todos nós. Sobretudo com uma alegria que o liga ao povo, do qual é parte. A alegria é sempre maior que a tristeza no doutor, e nesse sentido é profundamente brasileiro.

E diferente do craque de hoje. Uma foto de Sócrates num bar tomando cerveja provoca um sorriso, a mesma foto de Adriano traz algo de dramático. Nunca se exigiu do doutor que fosse um exemplo, nunca se ousou fazer de Sócrates um modelo de conduta. Sempre foi ele mesmo para o bem e para o mal. Não era modelo nem mesmo do jogador que a torcida do Corinthians costumava consagrar. Garra e disposição física não eram exatamente suas qualidades mais notáveis. Mas impôs sua verdade, feita de classe, irreverência e alegria.

Brasil alegre. Sócrates crê num futebol e, por decorrência, num Brasil alegre. Numa época em que o desejo de qualquer jovem jogador é sair do Brasil, Sócrates, ao contrário, só fala do País. E a quem o ouve fala do Brasil de uma forma que se aproxima do sonho e da utopia. Que importa? Sonhos, não é isso que é a vida? Enquanto ouvia esse verdadeiro grande craque, genuíno ídolo popular, falar de suas visões e dos planos com tanto entusiasmo, eu não poderia me impedir de pensar no que perdemos. Não apenas no futebol.

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