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Ugo Giorgetti
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Uma boa notícia

As notícias são desanimadoras. São reclamações da Fifa, eternas, repetidas, monótonas, reclamações chamando nossa atenção para o cumprimento de prazos, são nossos irresponsáveis respondendo da mesma maneira opaca, repetitiva, quase infantil, são jogadores obrigados a se exibir em lamaçais absurdos, em razão de torneios também absurdos, é um assunto sério e dramático como o racismo virando fotografias onde vítimas e autoridades se confraternizam sorridentes como se a matéria estivesse melhor representada nas colunas sociais.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h08

Nomes distantes e sem nenhum significado se tornaram familiares como Valcke, Allianz, AEG, K&K , etc, etc. Todos ansiosos para fazer dinheiro neste maravilhoso País. Sem falar naturalmente de apreensão de cocaína e coisas do gênero. Essa rápida coleção de infortúnios pode se estender longamente. Mas não vou torturar eventuais leitores com coisas que são de domínio público.

Prefiro ficar com uma notícia que foi tratada como mais uma notícia triste, mas, ao contrário, a meu ver é alegre. Trata-se da, talvez, definitiva partida de despedida da carreira de Tulio Maravilha, que jogou no Corinthians, no Botafogo, numa infinidade de outras equipes brasileiras, inclusive a seleção. Tulio, que um dia chegou de helicóptero para treinar no Parque São Jorge. Tulio, que na contagem que ele mesmo faz e da qual é o único responsável, já assinalou mais de mil gols. Sim, ele estava em atividade até a semana passada correndo pelos gramados na glória de seus 44 anos. Agora parou. Assistindo a seu último jogo estavam 36 espectadores pagantes. Era um jogo pela segunda divisão do Campeonato Mineiro. Não sei o resultado, sei que era a última partida de Tulio. Pelo fato de estar jogando numa pequena equipe, dos seus 44 anos de vida, num campeonato longe do interesse da imprensa, o episódio foi tratado como melancólico pelo escasso noticiário que despertou. Melancólico por que? O homem estava fazendo o que sempre fez, isto é, jogando bola, numa idade em que quase todos os outros pararam. Que importa se era num time pequeno ou grande? Que importa se estivesse se exibindo para 36 ou 100 mil espectadores? O jogo é o mesmo, a bola estava ali na sua frente. Penso nessas 36 pessoas que se deram ao trabalho de pagar ingresso para ver o jogo. Quem seriam? Alguma delas teria ido ao estádio com o propósito de ver Tulio Maravilha? Teria ele ainda admiradores, mais alucinados do que ele, dispostos a pagar ingresso para vê-lo? Acho que todas essas perguntas não interessam a Tulio.

Acho que o que ele queria mesmo é estar jogando futebol. Sempre foi inteligente, jogou em grandes clubes, ganhou dinheiro. Não acredito, portanto, que estava jogando por necessidade. Estava jogando porque não consegue se afastar do que ama. Só isso. Foi descendo a ladeira de clube para clube. Sua carreira se perde num emaranhado de pequenos clubes, cada vez menores, cada vez menos importantes. Tulio foi em frente indiferente à insignificância de onde jogava, do torneio que disputava.

Nunca deve ter pensado que estava fazendo alguma coisa humilhante, nem deve ter tido qualquer traço de amargura por estar cada vez mais afastado do grande público. Nada disso interessa. Interessa entrar num estádio, qualquer estádio. Num campo, qualquer campo. Talvez, com o jogo iniciado, ele se sentisse sempre dentro do Maracanã lotado. Tulio não queria parar. Foi obrigado, não pelo tempo, que este ele venceu, mas pela mulher que o ameaçou com divórcio caso finalmente não parasse. É compreensível, olhando do lado dela. E incompreensível, olhando do lado dele. De qualquer maneira diante da ameaça Tulio se rendeu.

Homem de família, prometeu que agora para. No entanto, não deixou de fazer uma declaração curiosa, que talvez não tenha escapado á sua zelosa esposa. Disse que, por ele, jogaria até os 50.

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