Uma cara brasileira

Quem não gosta de medalha de ouro? Elas são sempre bem-vindas, sobretudo para países que não as possuem em quantidades escandalosas, como EUA (929), União Soviética (395), Alemanha (247), Grã-Bretanha (207). A conquista de Sarah Menezes já valeria a comemoração só pelo fato de ser apenas a 21.ª vez em que a bandeira nacional apareceu no topo, na história dos Jogos. Além disso, veio no primeiro dia de disputas e até ontem era inédita para o nosso judô feminino.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h01

Mas me chamou a atenção, e comoveu, o jeito da jovem piauiense, de 22 anos. Baixinha, morena, olhos ligeiramente puxados que denotam traços caboclos. Enfim, uma cara de brasileirinha típica, dessas com as quais topamos todos os dias.

Somos um país de grande miscigenação - e o Felipe Kitadai, que pouco antes ganhara o bronze, é outra prova disso. Ainda bem, pois assim afastamos ideias malucas a respeito de superioridade desta ou daquela raça!

Só que não tem como esconder uma ponta de orgulho ao ver uma brasileirinha boa de briga encantar na casa dos gringos de cabelos loiros e olhos azuis. Eles têm uma rainha no palácio de Buckingham? Ora, agora temos uma princesinha no tatame. E arretada!

Espírito olímpico. A trégua entre povos em choque é uma das bases dos Jogos. Pelo menos era assim na Antiguidade, quando gregos e agregados faziam pausa em suas desavenças e se reuniam periodicamente em Olímpia para celebrar os deuses e a civilização. Uma festança regada a vinho e esportes. Hoje em dia, travam-se batalhas incríveis em busca da supremacia no pódio, mesmo assim o espírito olímpico prevalece em algumas situações.

A delegação brasileira em Londres tem exemplos dos reflexos positivos desse estado de distensão. Se Iziane levou um chega pra lá no basquete feminino ao ser pega com o namorado na concentração, no basquete e no vôlei masculinos há casos de reconciliação. Nenê e Leandrinho foram acolhidos pelo técnico Ruben Magnano e hoje reforçam o time que estreia contra a Austrália. Ricardinho e o treinador Bernardinho deixaram de lado divergências e iniciam juntos a caminhada pelo terceiro ouro no jogo com a Tunísia.

Bacanas esses episódios. Não sei se os atletas e respectivos "chefes" estreitarão laços de amizade; na verdade, não sei sequer se se querem bem. Se houver afinidade, tanto melhor. Caso contrário, no mínimo prevaleceu o interesse maior (o sucesso das modalidades que praticam), e houve lição de civilidade entre adultos e profissionais. Desavenças corroem, esparramam maus fluidos, envenenam ambientes e interferem na produção.

Esse esfacelamento ameaçava fazer estrago no vôlei masculino, quando Ricardinho foi afastado do grupo que se preparava para o torneio de vôlei no Pan do Rio, em 2007. O levantador foi cortado numa noite de sábado, se minha memória não me pregar uma peça, e ficou aquela nuvem negra sobre o grupo. De lá para cá, ensaiou-se a paz, que nunca saía da boa intenção. Até que deu o ar da graça.

Magnano e a CBB agiram bem, ao escolher o grupo que representará o basquete. Ninguém jamais duvidou da capacidade de Nenê e Leandrinho, dois dos patrícios que cavaram lugar no seleto mercado da NBA. Mas restou mágoa por não terem atendido à convocação para a disputa do Pré-Olímpico.

O Brasil se esfalfava para voltar aos Jogos, após longa ausência, e precisava dos melhores. Ambos alegaram impossibilidade de participar da fase de qualificação. Ficou chato e pareciam nomes riscados do caderninho do argentino, que orientou o país dele na campanha do ouro em Atenas. Magnano, tarimbado, apostou no tempo como conselheiro e mediador. Não deu outra: na hora H chamou a dupla, varreu a poeira e tem à disposição elenco forte. O importante, nos dois casos, é que se captou espírito olímpico.

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