Uma coluna quase de futebol

O ex-prefeito de NY, Rudy Giuliani, fez recentemente algumas advertências sobre Olimpíada e Copa do Mundo. "Quando um país vai sediar a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos os problemas do mundo são importados ao país, e é isso que vai acontecer no Brasil." Giuliani foi contratado como conselheiro do Rio para a segurança da Olimpíada e, apesar de elogiar o trabalho do Brasil, insiste em que o perigo não é apenas ficção.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

A preocupação com a segurança é quase uma obsessão americana, sobretudo depois dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001. E é exatamente o homem que estava no comando da cidade de NY naquele trágico dia, portanto pessoalmente traumatizado pelos acontecimentos, que nos vem advertir dos perigos que corremos. Achei que havia um evidente exagero nas declarações. O Brasil nunca foi um país alvo do terror internacional, somos pacíficos e ordeiros, somos o "homem cordial", apesar de tudo.

Resolvido o problema pontual do tráfico de drogas, como já o foi praticamente com a tomada das favelas e complexos onde se desenvolvia, colocando um pouco mais de polícia na rua tudo estaria resolvido. Pensava nisso enquanto lia, e precisamente na mesma hora, alguém entrava fortemente armado numa escola do Rio e realizava o ato de terrorismo mais sinistro da história do Brasil.

Até hoje, sexta feira, dia em que escrevo esta coluna, estava convencido que nossa velha e aparente cordialidade ainda não era coisa totalmente morta. No fundo apenas me enganava, ou não queria ver. Essa tragédia vem mostrar que não sabemos nada sobre o que realmente ocorre, nas nossas proximidades inclusive. Não sabemos nada do que ocorre nos subterrâneos dessa sociedade, não sabemos o que pode estar sendo engendrado nesse momento através dos inúmeros e invisíveis fios, compostos de desejos, planos e frustrações que tecem a malha do nosso cotidiano. E, pior, não nos importamos.

No fundo o ex-prefeito de NY tem razão. Estamos sujeitos a tremendos riscos. Não, porém, pelas razões que ele imagina, não por um terror executado por maus elementos que vem de fora, mas por algo que forjamos aqui dentro mesmo, no nosso país , na nossa sociedade. Sei que essa coluna é de futebol e vou imediatamente me dirigir humildemente para essa área, pedindo, aliás, desculpas pela longa introdução.

E eis que leio declarações do neto de Pelé neste mesmo jornal afirmando que, embora santista estava indo para o São Paulo porque "tenho de pensar na minha carreira". E vejo que a pessoa que fez essa declaração tem apenas doze anos! Esse é um exemplo de como o futebol colabora e participa de uma sociedade ensandecida.

Esse menino deve ser, não tenho dúvida, um bom garoto, talvez talentoso, talvez com algo do avô, e isso será bom para todos. Suas declarações são comuns, podiam ter sido feitas por qualquer garoto. Mas são um pequeno exemplo das tremendas pressões que se abatem sobre as pessoas desde muito cedo. Aos doze anos a última coisa que o menino devia estar preocupado era com a "carreira". No entanto é o que importa, é o que ele vê todos os dias, é em que se acostumou a pensar. O que isso tem a ver com terrorismo e matança? Nada. Aparentemente nada. É só um pequeno fato, uma declaração feita por um garoto, que eu não teria dado tanta importância, tivesse lido em outro dia. Não hoje. Não sei por que hoje ela me bateu muito mal.

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