Uma Copa linda de se ver nas telas

Evolução tecnológica desde a década de 30 faz as transmissões de TV exibirem o esporte cada vez em mais detalhes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2010 | 00h00

Boleiro de coração não esquece o cotovelaço que Pelé deu num zagueiro uruguaio na Copa de 1970 nem o endiabrado Garrincha entortando os adversários no Chile, em 62. Mesmo que tentassem, sempre haveria o Canal 100 para lembrar estes momentos que fazem parte do imaginário do torcedor brasileiro. Carlos Niemeyer foi quem promoveu o casamento do cinema com o futebol-arte, numa parceria até hoje inesquecível. Pegando carona no Canal 100, Joaquim Pedro de Andrade filmou Garrincha na imensidão do Maracanã, do ângulo do torcedor colocado no fosso ou na arquibancada. Do fosso, podiam-se ver as famosas pernas tortas, segui-las no seu balé imortal.

Ainda nos anos 1930, ao filmar as Olimpíadas de Berlim, Leni Riefenstahl estabeleceu um padrão de cobertura esportiva que até hoje permanece válido. Em 1960, o italiano fez seu belíssimo documentário sobre a Olimpíada de Roma e, em 1964, Kon Ichikawa incorporou novidades tecnológicas - o uso da tele - para flagrar a solidão do atleta no momento em que tentava ultrapassar seus limites. O avanço tecnológico não para. Hoje, o boleiro que assiste a transmissão de jogos pela TV tem dificuldade para se acostumar, no estádio, à falta de replay, que permite conferir as jogadas.

Esse casamento entre cinema e futebol foi levado ao limite no Mundial da África do Sul. Talvez daqui a quatro anos, no Brasil, tenhamos inovações - e limites a ultrapassar. Não importa. O tempo não para. Assim como Orson Welles e seu genial fotógrafo, Greg Tolland, sistematizaram e unificaram todas as novidades esparsas antes de Cidadão Kane naquela obra-prima, a cobertura no África do Sul valeu-se de múltiplos recursos. A câmera lenta vem sendo usada com regularidade em torneios de natação e a câmera corre sobre trilhos ao longo de toda a Sapucaí para acompanhar a evolução das escolas de sambas no maior espetáculo da Terra.

Cada jogo foi, em si, uma obra-prima audiovisual. Nem Max Ophüls nem seu discípulo, Stanley Kubrick, que adoravam soltar a câmera, teriam criado momentos mais grandiosos do que as corridas dos atacantes da Fúria, rumo ao gol da Alemanha, seguidas pela câmera na lateral do gramado. As jogadas pareciam ensaiadas, e de alguma forma foram, pois o time espanhol é basicamente formado por craques acostumados a jogar no Barcelona, mas, se eles ensaiavam entre si, com certeza não ensaiavam com a câmera. Igualmente grandiosas, e inebriantes, as gruas que levantavam a câmera ao redor do gol ofereceram ângulos - e movimentos - de cortar o fôlego. E tudo era editado às pressas, simultaneamente, para exibição imediata no telão. Em mais de um momento, se o jogo não estivesse bom, a transmissão o salvava. Não é de agora, mas o cinema foi o grande vencedor desta Copa. As transmissões passarão a fazer parte do nosso imaginário, como o Canal 100. "Que bonito é" era o tema musical do velho cinejornal brasileiro. Permanece atual - que bonito é ver a Copa de 2010 no telão (mas teria sido melhor com Brasil na final).

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