Uma crise sem fim

A questão do Tibete torna-se um grande fantasma para a China

Cláudia Trevisan, Pequim, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2008 | 00h00

Concebida para ser o ápice dos eventos que antecedem os Jogos de Pequim, a chegada da tocha olímpica ao topo do mais alto pico do mundo, o Everest, se transformou em uma operação militar, que reflete o temor do governo da China de que o maior evento internacional já realizado no país seja atrapalhado por manifestações pela independência do Tibete.Com a ajuda do Exército do Nepal, que deslocou 25 soldados para o seu lado da montanha, e o veto à entrada de turistas no lado chinês, é possível que Pequim consiga levar a tocha até o cume do mundo sem enfrentar protestos. O governo do Nepal afirmou que os militares têm ordem para atirar em eventuais manifestantes e a China mantém segredo sobre a data da escalada, que deve ocorrer entre os dias 1º e 10 de maio.Mas será difícil repetir o grau de controle e segurança durante os 16 dias dos Jogos, quando cerca de 500 mil estrangeiros estarão na capital chinesa, sem contar os milhares de atletas.Os fantasmas do Tibete, da condenação à situação dos direitos humanos e da crítica à relação com o Sudão continuarão a assombrar o governo de Pequim nas Olimpíadas e a grande interrogação diz respeito à reação das autoridades a eventuais protestos.O que vai ocorrer se algum campeão olímpico der declarações de apoio ao dalai-lama? Ou se turistas saírem com camisetas que tragam estampada a imagem do líder espiritual dos tibetanos, exilado na Índia desde 1959?Depois dos protestos contra a China realizados em Lhasa no mês passado e as manifestações que afetaram o percurso mundial da tocha olímpica, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, a situação do Tibete se transformou em um dos mais sensíveis temas para o governo chinês e sua relação com o mundo.Pequim começou a perder o controle da região no dia 10 de março, quando monges budistas realizaram demonstrações pacíficas para lembrar o 49º aniversário do fracassado levante contra o domínio chinês que forçou o exílio do dalai-lama. Quatro dias depois, centenas de tibetanos tomaram as ruas de Lhasa e realizaram a mais violenta manifestação contra o governo chinês desde 1989, quando a Lei Marcial vigorou durante um período de 13 meses.A China afirma que o Tibete é uma questão interna e rejeita qualquer ingerência internacional no assunto. Para o governo de Pequim, os manifestantes são separatistas instigados pela ''camarilha do dalai-lama'' que pretendem levar a região de volta ao sistema ''feudal'' que existia antes da ocupação pelo Exército de Libertação Popular em 1951, no que a China classifica de ''Libertação Pacífica do Tibete''.Apesar de dizer que o Partido Comunista promove um ''holocausto'' cultural na região, o dalai-lama sustenta que é contra a independência e a favor de um maior grau de autonomia, sob o domínio chinês.O crescimento de dois dígitos dos últimos anos é o principal elemento na estratégia de Pequim para tentar legitimar sua presença no Tibete. Mas as estatísticas sobre o desenvolvimento mascaram um sistema econômico que privilegia os han, a etnia majoritária na China (91,6% da população), que representa cerca de 10% da população do Tibete. Os han emigraram para a região nas últimas décadas com estímulo do governo chinês, em uma tentativa de garantir a sua integração ao território nacional.O problema é que existe um abismo cultural entre as duas etnias e entre a visão de mundo do Partido Comunista e dos tibetanos. Língua, escrita, religião, culinária, vestimenta e arquitetura são totalmente diferentes e isso se reflete na divisão de Lhasa em um bairro tibetano e um chinês, que parecem duas cidades distintas.O ateísmo é propagado de maneira oficial pelos comunistas, que vêem na religião uma forma de alienação e atraso. Para os tibetanos, o budismo é um componente central da existência e o dalai-lama ocupa o topo em sua hierarquia espiritual.A reação das autoridades de Pequim aos protestos tende a piorar ainda mais a divisão. Além de prender quase 1.000 pessoas suspeitas de participarem das manifestações, o governo chinês decidiu intensificar a ''campanha de educação patriótica'' nas centenas de mosteiros do Tibete, pela qual os monges são obrigados a renunciar o dalai-lama e escutar discursos saber os benefícios trazidos pela presença chinesa na região.No dia 21, o Partido Comunista chinês anunciou uma nova campanha de educação, desta vez para seus próprios quadros, com o objetivo de ''combater o separatismo, proteger a estabilidade e promover o desenvolvimento''.

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