Uma crônica carioca

No Rio de Janeiro, a trabalho, aproveito para assistir a um jogo no novo Maracanã, que eu conhecia só pela TV. O estádio impressiona, desde a entrada. Lemos lá escrito, no alto das pilastras, o nome oficial, Estádio Mario Filho, dedicado ao irmão de Nelson Rodrigues que, contra Carlos Lacerda, defendeu sua construção, e no local onde se encontra desde 1950.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2014 | 02h03

Grande foi Mario Filho, cronista de mão cheia, melhor até que o irmão famoso nas palavras do jornalista José Trajano, que escreve a apresentação de uma seleta dos seus textos futebolísticos. Bem, basta lembrar que Mario é autor de O Negro no Futebol Brasileiro, possivelmente o maior clássico sobre esse esporte no Brasil. Escrevo e já me corrijo: dizer que esse livro é sobre futebol, apenas, seria prova irremediável de miopia mental. O Negro no Futebol Brasileiro é um grande livro não só sobre o futebol, mas sobre o Brasil, na linha das ambiciosas interpretações do País como Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

Lembrei-me de tudo isso ao entrar no estádio, que os locutores antigos chamavam de "o maior do mundo", para o clássico Botafogo x Santos. No interior do Maraca, novas surpresas. Tudo limpinho, tudo grandioso, funcionários que nos conduzem ao lugar marcado, etc. Vê-se muito bem a partida e, enfim, naquele raciocínio típico da classe média, o consumidor sente-se respeitado, pois o tratamento justifica o preço (salgado) do ingresso.

No campo é que as coisas não iam tão bem assim, apesar de o jogo ter sido emocionante - Botafogo 2 x 3 Santos, com o time paulista sempre na frente e o carioca sempre nos calcanhares. Cinco gols, o que não é desprezível, ainda mais quando se considera que alguns deles foram bem bonitos. Mas nem mesmo a emoção e o placar movimentado foram capazes de encobrir algumas jogadas toscas, alguns erros primários, pouco condizentes com a majestade daquele palco.

Nele, no passado, desfilaram alguns dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Os quatro telões se incumbiam de atiçar nossa nostalgia ao mostrar, no intervalo, imagens do Canal 100 (ao som, é claro, de Na Cadência do Samba) com jogos do passado entre Santos e Botafogo. Dois esquadrões de sonho, opondo, simplesmente, Pelé de um lado e Mané Garrincha de outro. É até covardia comparar. Mas a verdade é que esse cruzamento entre passado e presente provoca forte emoção. O passado dos grandes craques e de um estádio povoado de tipos populares, acomodados (muito mal acomodados, de fato) nas gerais e que eram também personagens das câmeras do Canal 100. O presente, com seu estádio moderno, confortável, cadeiras que são quase poltronas, banheiros limpos, boa visibilidade do campo, etc. Os craques de hoje já não são assim tão craques e só os chamamos desse jeito por displicência vocabular. E onde estarão os torcedores desdentados, os geraldinos que pagavam quase nada e iam, com sua pobreza e alegria, festejar o time do coração? Imagino que ainda existam e estejam vendo os jogos em casa ou, mais provável, filando a TV do botequim da esquina, sob os resmungos do português.

Dias depois peguei um táxi para ir ao cinema. O motorista logo se declarou Flamengo e perguntou se eu sabia o resultado do jogo. Disse que ia lhe dar uma má notícia, pois o Mengo havia perdido para o Santos por 1 a 0. No mesmo Maracanã. Durante a corrida, a conversa ficou no futebol e no estádio. O taxista disse que quase não se interessava mais pelo futebol brasileiro, com seu nível muito baixo. Via jogos da Europa na TV. Falamos do vexame da seleção e de outras coisas.

Contei a ele da minha emoção ao conhecer o novo Maracanã, que não era o mesmo de antes, mas mesmo assim estupendo. Falei do conforto, da opulência. E brinquei: "Tem até papel higiênico no banheiro!". Ele riu. E cedeu a um momento de meditação. "O estádio é lindo, e o futebol, uma droga. O Maracanã nos enche de orgulho, mas o pobre não pode mais entrar e vive cheio de turistas". Emendou: "Será que é isso mesmo que queremos para nós?". Eu não soube o que responder.

Tudo o que sabemos sobre:
Luiz Zaninfutebol

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.