Uma discussão nada olímpica

Boleiros

Antero Greco, antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2008 | 00h00

Adoro futebol, sou vidrado numa bola rolando, vibro com gol de pelada de rua. Por ofício, mas sobretudo por paixão, se possível vejo até partida de campeonato de grupo escolar. Sem contar que bate uma síndrome de abstinência danada em períodos em que o outrora nobre esporte bretão some das telinhas de tevê. Quem ama esse joguinho sabe bem do que falo.Gosto de futebol também na Olimpíada. Confesso um pecado: é das modalidades que mais prendem minha atenção nesse monumental festival esportivo. Mas ultimamente ando com a pulga atrás da orelha - e o que antes era convicção inabalável agora me enche de dúvidas. Com tantos desentendimentos entre Fifa, clubes, Confederações, COI, será que vale a pena manter o futebol nos Jogos? Não tenho tanta certeza, embora seja esporte que freqüenta o calendário olímpico desde que Jules Rimet ainda era vivo.Pode reparar, a cada quatro anos, assim que se aproxima nova edição de Olimpíada, ressurge a discussão em torno do papel do futebol nessa festa. Fica a lengalenga quase tão longa quanto um duelo entre Nadal e Federer: de um lado os clubes se negam a liberar seus atletas; de outro, muitas Confederações tratam de reforçar as seleções, de olho numa medalha. Por fora, duelam o COI, que teme perder chamariz e fonte de renda, se o futebol sair da programação, e a Fifa, que não quer ameaças aos torneios milionários que organiza e a mantêm. O resultado disso é uma queda-de-braço cansativa, que desgasta a todos, em especial os jogadores. Não importa se mais novos ou rodados, há constrangimento quando um time tenta vetar a liberação de seu funcionário. Em alguns episódios, o jogador usa de seu prestígio e consegue convencer os patrões. Em outros não, como parece ser o caso de Kaká com relação ao Milan. Em atitudes mais radicais, entram em cena os que peitam seus pagadores, como ameaça agora Ronaldinho Gaúcho, diante da negativa do Barcelona de cedê-lo para o Brasil na aventura chinesa.Na verdade há uma grande hipocrisia na forma como o futebol é encarado. Além disso, a cartolagem perde um tempão para costurar acordos, que em geral apresentam falhas. Décadas atrás, eram só atletas amadores, o que teoricamente estaria no espírito dos Jogos. Mas União Soviética e países da Cortina de Ferro mandavam seus times principais, sob a alegação de que os jogadores não eram profissionais. Com marmanjos contra jovens mal saídos da adolescência, a turma "vermelha" faturava as medalhas.Então, permitiram profissionais de qualquer idade, desde que não tivessem disputado um Mundial. Também não deu certo, porque a Fifa chiou e viu nessa abertura sombra para as Copas. Veio, em seguida, a limitação a três atletas com idade superior a 23 anos. Nem assim, os iluminados se entendem. Por mim, mandava meninada de até 16 anos para os Jogos. Seria um torneio divertido. Ou, se nem isso desse certo, tirava o futebol de vez dos Jogos e o deixava só com a Fifa. Não tenho procuração alguma de herr Joseph Blatter para defender essa idéia, mas essa enrolação é a negação do espírito de confraternização que deveria rondar os Jogos. Tá bem, admito de novo: esse papo de congraçamento entre os povos é conversa pra boi dormir. Todo mundo puxa a sardinha pro seu lado, tenta mostrar-se melhor do que os outros e usa o esporte com fins políticos. Tadinho do Barão de Coubertain...

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