Uma estranha calma

Grand Prix

Reginaldo Leme, O Estadao de S.Paulo

31 de outubro de 2008 | 00h00

Eu vinha estranhando. Tudo calmo demais, incluindo eu mesmo, na semana da decisão de um título mundial envolvendo um brasileiro, 16 anos depois da última conquista de Ayrton Senna. Estive com Felipe Massa várias vezes na semana e ele sempre aparentou a mesma tranqüilidade de outras vésperas de corrida, chegando até a dizer que o São Paulo, seu time de coração, tinha mais chance de ser campeão no Campeonato Brasileiro do que ele na Fórmula 1. Na terça-feira levei o Luca Colajanni, chefe de imprensa da Ferrari, ao meu programa no SporTV e nunca o vi tão brincalhão, mesmo quando falava da decisão. Na quarta foi a vez de o diretor-geral da equipe, Stefano Domenicali, chegar ao Brasil dizendo que a conquista de Massa era improvável, embora tantas coisas improváveis aconteçam no automobilismo.Na quinta-feira, já em Interlagos, Hamilton e Felipe se encontraram durante a entrevista coletiva que abre oficialmente o evento, deram um demorado aperto de mão diante de fotógrafos do mundo todo e Felipe continuou no clima: "Ele apertou forte demais." Tudo muito calmo. Até demais.Mas quando o dia terminou, chegou aquele sentimento de que logo na manhã seguinte a briga começaria pra valer. Aí caiu a ficha. Pelo menos pra mim. Começou a dar um frio na barriga, o planejamento do meu trabalho para a transmissão da corrida, coisa que faço antes de cada GP com a maior tranqüilidade, trouxe a lembrança de outras decisões e a tensão foi aumentando. Hoje, sem calmante, não dá. Aí eu quis saber como estava o Felipe e, surpresa, não notei diferença nenhuma. Ou ele está forte demais para conseguir esconder a tensão, ou está mais forte ainda para se manter imune a essa tensão. Amanhã, na hora da classificação para o grid, que pode aumentar ou diminuir a chance dele na corrida, é possível que a responsabilidade pese. E o pior é que ele nem pode tomar calmante para não correr riscos de prejuízo dos reflexos.Em cima disso tudo, ainda tem a chuva, ameaça de todos os anos. O que a chuva pode causar a Hamilton e Massa ? No retrospecto deste ano, o piloto da McLaren levou vantagem em pista molhada. Das quatro etapas disputadas sob chuva, ele venceu duas. Massa venceu uma, e justamente numa corrida, aquela da Bélgica, que o Hamilton havia vencido, mas sofreu punição e caiu para terceiro. Houve ainda a decepção de Silverstone, em que, por erro na escolha dos pneus, os dois carros não paravam na pista. Na soma das corridas com chuva, Hamilton marcou 9 pontos a mais que o brasileiro. De qualquer forma, chuva traz o imponderável para a pista, tornando mais fácil o erro.Em condições normais, a Ferrari deve ganhar a prova e, nesse caso, a situação do campeonato torna Felipe Massa um grande favorito. O problema é que ele vai precisar que quatro pilotos se coloquem entre ele e o Hamilton. Um deles tem de ser o Raikkonen por obrigação. Achar outros três carros em condições de chegar à frente do inglês sem que nada de anormal aconteça, é bem difícil. Missão para Alonso, Kubica e Heidfeld, em primeiro plano; Nelsinho, Trulli e Glock, em segundo. O que pode ajudar um pouco é que a McLaren vai impor a Hamilton um ritmo mais baixo de giros por ele usar um motor que já está no segundo fim de semana.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.