Uma falsa liberdade de imprensa

Apesar da promessa, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas têm dificuldades diante das autoridades chinesas

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 00h00

A menos de duas semanas do início da Olimpíada, o grau de liberdade que os jornalistas terão para trabalhar na China ainda é uma incógnita. Apesar da promessa do governo de Pequim de garantir completa liberdade de imprensa antes e durante os Jogos, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas continuam a ter dificuldades com a polícia e autoridades chinesas.Como parte dos compromissos que assumiu para ser sede dos Jogos, a China acabou com a necessidade de autorização prévia para jornalistas viajarem e realizarem entrevistas dentro do país - a única exceção ainda é o Tibete, região instável do ponto de vista político, para a qual o acesso ainda se mantém restrito.As novas regras valem para o período de 1º de janeiro de 2007 a 17 de outubro de 2008. Desde que elas começaram a vigorar, o Clube de Correspondentes Estrangeiros da China registrou pelo menos 260 casos de interferência indevida de autoridades chinesas no trabalho de jornalistas. Segundo a entidade, "interferência indevida" é uma expressão que pode incluir violência, destruição de material jornalístico, detenção, ameaças a fontes e a chineses que trabalham como assistentes de jornalistas, interceptação de comunicações, proibição de acesso a lugares públicos, questionamento por autoridades de maneira intimidante, vigilância e sujeição a outros obstáculos no exercício da profissão que estão em desacordo com as práticas internacionais.É difícil encontrar um correspondente estrangeiro que tenha participado da cobertura do terremoto de Sichuan, em maio, que não tenha sido parado por um policial e levado às "autoridades competentes", para ser liberado depois de longa negociação. As regras foram mudadas há mais de um ano e meio, mas os milhares de policiais espalhados pela China continuam a agir dentro do sistema antigo, no qual jornalistas precisavam de autorização das autoridades para viajar e entrevistar qualquer pessoa, mesmo um cidadão comum.O caso mais bizarro de interferência aconteceu no dia 3 de julho com uma equipe da rede de TV alemã ZDF, que não estava em uma longínqua cidade do interior, mas em um ponto da Muralha a 120 km da capital chinesa. Como se trata de um local histórico, a emissora teve o cuidado de obter autorização prévia das autoridades de Pequim. Mesmo assim, quando o repórter fazia uma entrevista ao vivo na Muralha, um policial pulou em frente à câmera e impediu que a transmissão continuasse, imagem que foi reproduzida em todo o mundo e levou o governo chinês a se desculpar.As restrições à atuação da imprensa se agravaram depois de março, quando o Tibete registrou as mais violentas manifestações contra a China em duas décadas.As emissoras de TV que pagaram milhões de dólares pelos direitos de transmissão da Olimpíada enfrentam dificuldades inéditas para atuar em Pequim. O governo quer controlar ao máximo a movimentação dos caminhões com links para entradas ao vivo, na tentativa de evitar cobertura de eventos que contrariem seus interesses, como protestos não programados.As transmissões dos Jogos que estarão a cargo da imprensa oficial chinesa serão realizadas com atraso de 10 segundos, o que permitirá aos censores cortarem eventuais manifestações contrárias à China por parte dos atletas ou espectadores.No início de julho, o governo chinês anunciou restrições para transmissões ao vivo da Praça Tiananmen, o coração de Pequim, onde em 1989 ocorreu o massacre de estudantes que protestavam contra o Partido Comunista e pediam democracia. Durante a Olimpíada, as emissoras só poderão estar na praça no período de 6h às 10h e das 21h às 23h, horário de pouco movimento, o que permitirá ao governo limitar o número de pessoas no local.No total, a China espera receber 36 mil jornalistas durante os Jogos, o que dará ao país um grau inédito de exposição. Mas ao mesmo tempo em que quer mostrar ao mundo as conquistas dos últimos 30 anos de reforma e abertura econômicas, o governo também teme o registro das fissuras da sociedade chinesa, principalmente eventuais manifestações de grupos pró-independência do Tibete, de muçulmanos separatistas de Xinjiang ou de seguidores da Falun Gong, a seita banida em 1999 depois de reunir 10 mil pessoas para um exercício de meditação coletiva ao redor do quartel general dos líderes comunistas em Pequim.

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