Uma festa à baiana

Aos 56 anos, Beijoca, um dos maiores atacantes da história do Bahia, acostumado a confusões e polêmicas quando jogava, caminha lentamente até o campo principal do Fazendão em que os profissionais treinam. No caminho, é reverenciado por todos os torcedores. Mais calmo, ele vai fazer o que todos os tricolores baianos gostariam: agradecer ao time a volta à Série A. Rodeado pelos responsáveis por resgatar o orgulho do Bahia, Beijoca discursa e chora como uma criança. Também faz chorar. Após oito anos de penúria e sofrimento, até com briga entre jogadores e a própria torcida, o campeão Nacional de 1959 e 88 está de volta à elite do futebol.

Fábio Hecico, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

"O Bahia só não acabou por causa da força de sua torcida e de Deus. Eu vinha sofrendo desde aquele 7 a 0 para o Cruzeiro em 2003 (na Fonte Nova), quando caímos. Eu vi o time descer, passar dificuldades e vexames. Depois, fui auxiliar na Série C em 2007, quando subimos para a Série B e tinha de agradecer a eles o resgate de nosso orgulho", conta Beijoca, emocionado.

O atacante formou, ao lado de Gesum e Douglas, um dos maiores trios ofensivos dos anos 1970 e 80. Nos oito anos em que defendeu o Bahia, ergueu expressivas sete taças, fez muitos gols e participou de algumas confusões. Hoje, evangélico, garante viver apenas na paz. "Era muita gozação, sofrimento, humilhação. Todos chamavam a gente de time de terceira, dizendo que equipe assim não precisava nem de vestiários. Nos maltrataram e chegaram a nos colocar para nos vestir após os jogos na rua", comenta. "Eu chorava muito pelos cantos, não aceitava ver o meu Bahia naquele estado. Hoje choro de orgulho."

Time de torcida apaixonada e vibrante, o Bahia passou, nos últimos sete anos, momentos de agonia, carência de conquistas, foi alvo de chacota dos adversários e presa fácil para os oponentes. Com menos receitas por estar em divisões menores, sofreu para montar bons elencos e tinha de encarar até 10 horas de viagens de ônibus por estradas esburacadas e mal sinalizadas para buscar o renascimento. "Parecia que tinha algo de errado dentro do Bahia, tudo o que fazíamos não dava certo", lembra Saturnino Nepomuceno Lima, o massagista Satu (na foto ao lado), de 55 anos, 38 dedicados ao clube.

Profissional respeitado por todos, descoberto por Evaristo de Macedo, Satu hoje mostra sua marca registrada, o largo sorriso no rosto, com satisfação. Afinal de contas, ele viu seu clube de coração no fundo do poço, sem perspectivas de melhora e agora curte o acesso.

"Antes de chegar aqui foi uma dificuldade tremenda, não entrava dinheiro e isso dificultava a vida de todos os funcionários. E até dos próprios jogadores", conta. "Éramos humilhados, tínhamos de ficar em pensões, divididos em três grupos, distantes um do outro. Mesmo com todo esse sacrifício, continuei trabalhando, só que passei muita dificuldade, tive de vender meu carrinho e algumas camisas de coleção para sobreviver e não passar fome", lembra, triste por ter sido obrigado a se desfazer de mantos históricos usados por ícones do Bahia, como Beijoca, Picolé, Baiaco, Charles, Bobô e Roberto Rebouças.

"Sempre fui muito querido por eles, que gostavam de mim e até choravam quando me viam chegar", enfatiza. "Além de ajudá-los, eu dava palavra de incentivo e conselho a todos, principalmente aos mais jovens." Charles e Bobô, ainda juniores, Jorge Wagner, hoje no São Paulo, e Daniel Alves, na seleção brasileira e no Barcelona, foram alguns que sempre ouviam Satu, zelador e espécie de faz- tudo no começo da carreira, que Evaristo de Macedo queria ter no profissional. "O Bahia me pagou um curso de massoterapia e hoje estou aqui, falando com orgulho de uma volta à Primeira."

Jogos no interior da Paraíba, no Amazonas e no Acre não saem da cabeça de quem viveu a fase crítica do Bahia. Principalmente nesses locais, o baiano "comeu o pão que o diabo amassou", segundo quem viveu a história. "Sem contar os campos sem qualidade nenhuma, a condução precária. Somos um time de história e merecíamos mais respeito. Mas todos perguntavam, para nos provocar: "Isso é um time?"", recorda o volante Marcone, de apenas 23 anos, mas desde a queda para a Série B no elenco. "Roemos o osso, agora é dar a vida para acabar com o jejum de conquistas, ganhar o Baiano (desde 2001 o Bahia não ergue a taça, vendo o rival Vitória dar oito voltas olímpicas e o Colo Colo, uma) e depois voltar bem à Série A, a casa do Bahia."

Revelado na categoria de base do Bahia, Marcone fala em fazer a carreira toda no clube. Rodeado por torcedores da ONG Mais Social, que cuida de 2,3 mil idosos, ele se emociona ao vê-los ali, com a camisa do clube, fazendo festa por um acesso. "É gratificante, temos de retribuir todos esse carinho. Nossa torcida merece só coisas boas."

Assim como Marcone, outro prata da casa, o lateral Ávine, tem boas histórias para contar em seus 11 anos de clube. "Em 2006, revoltados com nossa fase, alguns torcedores invadiram o treino e não tivemos outra escolha senão sair na mão (brigar) com eles. Mas aqui todo mundo é homem e sabia que com raça e dedicação, luta e perseverança, superaríamos tudo", ressalta. "Na época, muitos abandonaram o barco, pediram para sair e sobrou para a gente, da base. Esse acesso nos coroa e é a melhor coisa que ocorreu nos últimos tempos. O Bahia voltou ao Brasileiro para não mais sair de lá."

Outdoors, placas, bandeiras. Nem precisava mandar o recado, já que em todos os cantos da cidade outdoors confirmam suas palavras. "Avisa lá que eu tô voltando. Obrigado, Michael", mostra um deles, com a foto do atacante Adriano, o Michael Jackson da torcida e um dos heróis do acesso. Todos os jogadores, porém, são homenageados. Em cada esquina ou ponto de comércio da cidade pode ser vista a bandeira do Tricolor sendo mostrada com orgulho.

A despedida do calvário baiano ocorreu ontem, diante do Bragantino, em grande festa no Estádio do Morumbi, em homenagem aos milhares de torcedores que vivem em São Paulo. Foi o prolongamento do carnaval que se iniciou no dia 13, com os 3 a 0 na Portuguesa. Os amantes do futebol que se preparem, pois o grito de "Bahêa, Bahêa" agora será ainda mais forte por todo o País.

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