Uma festa a poucos metros da tragédia

Ao falar da multidão que foi ver a apresentação de Ronaldinho Gaúcho para a torcida do Flamengo, deveriam ao menos mencionar as centenas de mortos na catástrofe que ocorria no mesmo Estado, no mesmo momento, a pouca distância da festa dos torcedores. Enquanto escombros e lama eram revirados à procura de improváveis sobreviventes, a multidão de torcedores cantava e festejava como se os dois episódios estivessem acontecendo em diferentes países. Mas paro por aqui. Não quero ser o chato de plantão, aquele que aponta o dedo para tudo e todos, vendo mazelas em toda parte. Já que todos (menos as vítimas da chuva, claro) parecem felizes, vamos em frente.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

E, para dizer a verdade, esse episódio Ronaldinho não deixa de ter seu lado divertido. Quase sempre surge uma notícia curiosa. Uma delas, saborosíssima, apareceu num jornal, na sexta, e dizia que, caso um clube estrangeiro queira contratar o gaúcho, a multa rescisória será de R$ 400 milhões! Essa cláusula certamente faz jus ao tradicional espirito de irreverência dos cariocas, pois se o Milan dá saltos de alegria por ter se livrado de Ronaldinho, ainda recebendo algum de troco, quem seria a sociedade, associação, clube ou manicômio europeu que pensaria em pagar R$ 400 milhões para tê-lo de volta? Galliani, o astuto negociador do Milan, creio que ainda perambule pelo Rio, comemorando o belo negócio que fez.

Talvez até receba uma bonificação de Berlusconi pelos serviços prestados.

Mas as noticias mais sensacionais dizem respeito às quantias que Ronaldinho poderá gerar. É marketing que não acaba mais. Diz-se que a diretoria está à espera para negociar os calções e "as listas finais da barra da camisa". Se o negócio for como o Flamengo prevê, haverá seis marcas no uniforme. Sete, com a marca do próprio Flamengo, que infelizmente não pode ainda ser removida do uniforme para abrir espaço para mais marcas.

Um amigo, tão velho quanto eu, sugeriu um novo espaço no uniforme que o Flamengo, por incrível que pareça, ainda não pensou. Trata-se de ressuscitar o velho gorrinho dos anos vinte e trinta. Quem nunca ouviu falar desse artefato recorra à internet e procure fotos de times dessas décadas. Ronaldinho, de gorrinho, poderia abrir mais dois espaços, um de cada lado da cabeça. E, completando modestamente a sugestão do meu amigo, por que não usar um adesivo na testa, com outra marca? Esse adesivo, aliás, deveria ter dois preços: um quando Ronaldinho fosse enquadrado pelas câmeras só em close, isto é, de rosto inteiro. Outro preço, muito maior, para quando houvesse um super close, enquadrando só o adesivo, o que ocorreria na preparação da cobrança de uma falta ou pênalti. Enfim, opções de marketing não faltam: acabei de alinhavar mais três. E, claro, há outras, talvez luvas, por exemplo. O Rio não é exatamente uma região glacial, mas por que não elegantes, leves, diáfanas luvinhas, com a marca de um produto bem visível em cada mão? Enfim, apenas seis marcas num uniforme inteiro me parece um enorme desperdício de espaço. É preciso que o Flamengo dê um jeito nisso.

Ah! Mudando o assunto para o futebol, um verdadeiro boleiro se despediu quase discretamente. Com a dor e a angústia de quem amou e viveu inteiramente para sua vocação de criança, Washington vai embora. Sua foto, chorando, parecia um erro de diagramação no meio de tanto marketing.

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