Uma pancada na memória santista

Aconteceu o que todo mundo já sabia. O Campeonato Paulista terminou com uma semana de antecedência. Vencer o Santo André virou obrigação depois do Santos eliminar o São Paulo. Ao time de Dorival Júnior só faltava o carimbo de campeão, apesar do surpreendente roteiro da decisão ter criado um misterioso e empolgante duelo.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2010 | 00h00

É por isso que esse negócio que tanto amamos se chama futebol. O Santos assombrou seus adversários, grandes e pequenos, passou sobre todos com autoridade, alegria, com um jogo tipo exportação, que se imaginava extinto no País.

Escalado na vaga da próxima vítima, ao Santo André cabia lutar e jogar futebol, pois para encarar esta joia, transpirar apenas não basta, é preciso enfrentá-la de verdade. O primeiro tempo, na imagem do campo e dos números, mostrou uma enorme distância entre as equipes. Com 50 segundos, Wesley colocou o goleiro Júlio César para trabalhar, deixando no ar a impressão de que seria mais uma daquelas tardes de espetáculo, com domínio do começo ao fim.

Acostumado a dirigir as partidas, desta vez o Santos foi conduzido. Neymar e Robinho desapareceram dos planos coletivo e individual na primeira etapa. Os meninos foram absorvidos por seus próprios defeitos, mesmo com uma formação mais cautelosa, com Pará na lateral direita e Wesley no meio-campo ao lado de Arouca.

Depois de 45 minutos, os papéis de dominador e de dominado estavam trocados. Com três finalizações certas, o Santo André vencia o jogo, contra apenas uma bola no alvo, aquela de Arouca, ainda no primeiro minuto.

Alê, Gil, Branquinho e Bruno César constituíram um meio-campo corajoso, coeso na marcação e agressivo com a posse de bola. Havia espaço demais no sistema defensivo santista, enxergado por todos os adversários ao longo do campeonato, mas pouco penetrado, longe de ser um problema.

Seria, então, o fim da história? O Santos voltou sem Neymar para a segunda etapa. Contundido, o menino, sumido da partida, foi substituído por André, que ofereceu ao time uma necessária presença na área, fundamental na retomada de seu verdadeiro papel, agora mais equilibrado no meio-campo e com posse de bola ofensiva.

O personagem da virada, porém, foi o lateral-volante-meia-atacante Wesley, um nome ainda sem lugar no álbum das figurinhas carimbadas do Santos, um jogador que marca, acelera o jogo e aparece na área sem temê-la. No seu DNA, o trabalho defensivo ainda é uma novidade, que ele começa agora a desenvolver.

O Santos de 2010 é resultado do talento de seus jogadores e de uma opção pelo futebol bonito. O que deve ficar bem claro, entretanto, é que sua materialização se dá pelo conjunto e tem altíssimo custo físico e tático, pois a técnica não se discute.

O Santo André foi muito importante nesse processo, uma pancada na memória santista, no compromisso do futebol total. A quarta-feira reserva um grande jogo, que pode ser chamado de teste. O Atlético Mineiro não possui um time brilhante, mas a camisa pesa e a torcida joga junto.

A caminho do seu primeiro título, o Santos entra em campo também mirando a seleção brasileira, que deverá ter apenas Robinho no Mundial da África do Sul. O tempo foi curto para Neymar e Paulo Henrique Ganso. Dunga cumpriu a promessa de extrair comportamento mais profissional dos jogadores, e agora os premia com seu modelo de fidelidade.

Parece loucura levar para a Copa um jogador que jamais vestiu a camisa da seleção brasileira, um estranho no ninho da família Dunga. A questão é que Paulo Henrique Ganso continua oferecendo, a cada jogo, os passes que fazem do Santos uma equipe especial. Loucura é a irritante elegância desse moço. A vaga existe, mas temos um treinador certinho demais.

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