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Uma pequena diferença

Há pouco tempo fiz um pequeno documentário sobre um clube de São Paulo que não existe mais. Seu nome era Comercial F.C. Começou nos anos 30 do século passado e encerrou atividades em 1963, e na maior parte desse tempo disputou a Primeira Divisão do Campeonato Paulista enfrentando Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos entre outros.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h02

Nunca teve um bom time exceto por curto período em 51 ou 52. Não tinha estádio, não tinha torcida, tinha apenas meio andar alugado na Praça Clovis Bevilaqua, no centro de São Paulo. Em 1963 seus abnegados dirigentes desistiram e o Comercial se foi para sempre. O que movia esses dirigentes? Com que milagre sonhava o Capitão Rafael Oberdan de Nicola, seu eterno presidente, que pudesse fazer desse time, que era apenas alma, uma equipe sobrevivente e competitiva?

Não sei, mas certamente em sua opinião, torcida, estádio e demais condições eram absolutamente desnecessárias para a construção de uma equipe. Imaginava outra coisa que o momento histórico em que vivia não lhe permitia, sequer acenava. E foi-se o Comercial silenciosamente sem deixar traços. Até a velha sede da Praça Clovis foi demolida; resta um distintivo na porta do prédio atual da Federação Paulista de Futebol. Pois bem, hoje, 2015, chego à conclusão de que o velho Capitão estava certo. Realmente estádio, torcida, a lenta feitura de uma tradição, o lento esculpir do tempo dando vida a qualquer equipe, não são absolutamente necessários. A prova disso é o Red Bull Brasil, que gloriosamente se classificou para disputar as quartas de final do tradicional Campeonato Paulista de futebol contra o não menos tradicional e glorioso São Paulo Futebol Clube.

O Red Bull é o Comercial do capitão Oberdan redivivo. Não tem campo, quase não tem torcida, não tem feitos anteriores. Mas tem dinheiro. Ao contrário dos anos 40, 50 do século passado, o momento histórico hoje é inteiramente diferente. O sonho, o esforço, é completamente dispensável. Foi necessária apenas a vontade de uma empresa multinacional austríaca para que, com um gesto de mágica, se formasse um time.

O clube disputou seu primeiro campeonato em 2008. Galgou em sequencia todas as etapas, saindo da Série B, ganhando a A3 ,depois a A2 e surgindo, rapidamente, ao lado dos grandes neste Campeonato Paulista em que, aliás, realiza excelente campanha.

Como o Comercial antigo, o Red Bull manda seus jogos em estádio que não lhe pertence. Isso não tem nenhuma importância, porque há dinheiro disponível. Como também há para contratar jogadores. Em seu tempo de vida talvez já fosse possível ter revelado algum nome para o futebol, mas isso ainda não aconteceu. Pelo que pude ver, a maioria dos jogadores, ou todos, é cuidadosamente contratada - e bem contratada. Tem vários jogadores conhecidos, como Fabiano Eller, que já jogou em muitos dos nossos grandes clubes.

Curiosamente não é uma empresa cujo dono se envolve com equipes tradicionais. Não é a Parmalat. A Red Bull Energy Drink compreendeu, repito, que não precisava de mais nada além de seu próprio dinheiro para entrar no futebol, e entrar com força. Está mostrando que pode fazer tudo sozinha.

Vi o Red Bull jogar e é uma equipe muito diferente do que foi o Comercial. Joga de igual para igual com os grandes. Empatou com o Corinthians e venceu o Palmeiras. Como se trata de uma equipe quase sem torcedores, está sempre acostumada a jogar com torcida contra.

Esse empreendimento certamente trará muito lucro para a marca que o inventou, não sei se para o futebol brasileiro. O Comercial, na sua pobreza, revelou entre outros o grande Dino Sani, campeão no São Paulo, no Corinthians, no Boca Juniors, no Milan e na seleção brasileira de 1958.

Alguma saudade esse clube, que não tinha nada, deixou.

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