Uma semana com clima antigo

A semana começa e termina com delicioso sabor de passado.Começa quando Palmeiras e São Paulo protagonizam um clássico de outros tempos, fantasmagórico, como se legiões e legiões de palmeirenses e são-paulinos desaparecidos de repente ressurgissem, pairando sobre o Parque Antártica. O que aconteceu nesse jogo é algo que se pretende banido nesta época de ordem, profissionalismo, seriedade e business. Tudo isso foi substituído, com rapidez fulminante, por toda a sorte de malandragens, por um repertório de artimanhas que fariam corar João Avelino, Duque e mesmo o grande Oswaldo Brandão. Nunca saberemos o que foi real e o que foi encenado.Todos, literalmente todos, podem estar metidos nas malandragens. Já se foi o tempo em que havia cidadãos acima de qualquer suspeita. Do principal dirigente até o torcedor mais delirante todos são capazes de tudo. Qualquer um sabe que no Brasil o crime pode se dar em qualquer lugar e independe de posição social, econômica ou política dos atores. Portanto, aquela antiga, mas muito repetida idéia de que o autor da façanha "só pode ser um torcedor louco" não me convence. E havia ainda as câmeras de tv, e aí entra a nossa sociedade do espetáculo, para dar a tudo um aspecto de ensaiado e cuidadosamente produzido. Jogadores do São Paulo terão exagerado nos efeitos do tal gás? Seria um palmeirense que teria lançado o gás? A quem interessava tudo aquilo? As diretorias dos dois times são comprovadamente inocentes? Para dizer a verdade nada disso me importa muito.O fato é que o spray, mais o apagão, tornaram esse jogo inesquecível, um acontecimento inigualável, uma partida maior do que um habitual São Paulo x Palmeiras. O apagão, principalmente, foi notável. Fazia tempo que não se dava esse acontecimento quase cômico, que remete a estádios do interior profundo, a partidas de vida ou morte, a antigos jogos em províncias argentinas. Vem do fundo da memória esse apagão. Futebol não é só o que acontece no campo. A legenda desse esporte é composta de mil acontecimentos paralelos, tecidos pouco a pouco no tempo, histórias passadas dos mais velhos para os mais novos, que parecem por vezes desaparecer, mas que subitamente voltam. E a semana termina com mais gosto de passado. À televisão nada mais escapa; por isso, uma procissão desfilando solitária pelas alamedas do Parque São Jorge como numa cerimônia para iniciados, também é assunto. E a câmera mostrou um desfile místico, para honrar e pedir ajuda à imagem que protege o clube. Quem haveria de pensar nisso pouco tempo atrás, quando o Corinthians parecia inserido plenamente na atualidade internacional, fechando contratos fabulosos, arquitetando planos com magnatas europeus, quase falando inglês?Mas eis que é necessário recorrer ao velho São Jorge e, como no passado, depositar nele as esperanças de tantos corintianos. Fico feliz com isso. Prefiro São Jorge a Kia Joorabchian, aliás, acredito muito mais em São Jorge do que na maioria das empresas que se dedicam ao marqueting esportivo.É verdade que no fim da procissão deixaram o santo cair, e nessa hora um frio deve ter percorrido a espinha de todos os torcedores do Timão. Mau agouro? Talvez não. São Jorge provavelmente vai perdoar os desastrados, porque sabe que, ao contrário da MSI, seus pedaços podem ser reunidos de volta e sua glória restabelecida.

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