Uma torcida que não tem time

Normalmente escrevo às sextas-feiras. Espero até o último instante por um fato novo que possa ser objeto de uma coluna. Desta vez escrevo logo pela manhã de quinta, depois de mais um espetáculo grotesco proporcionado pelo Palmeiras em pleno Pacaembu, perdendo para o Goiás diante de 37 mil atônitas pessoas.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

O que me leva a escrever não é mais esse fracasso de um time que já foi uma Legião Romana e agora não passa de um Exército Brancaleone, se me permitem a citação cinematográfica. O que me move a escrever é a torcida. O Palmeiras não merece a torcida que tem. Nenhum clube, nem o Corinthians, ninguém tem uma torcida tão fiel. O Corinthians, nos seus famosos anos de seca, contou sempre com seus torcedores fiéis, apesar das derrotas, mas que quase nunca foram derrotas humilhantes, absurdas. Eram derrotas para o Santos de Pelé ou para o próprio Palmeiras de Ademir.

Equipe menor. O que diferencia o Palmeiras de hoje é que parece que todos no clube, diretores, treinador e jogadores (com a exceção de Kleber), estão convencidos de que o Palmeiras é uma equipe menor, que ninguém precisa temer. Na verdade eles é que são muito menores que o clube. Quando foi dada a saída do jogo contra o Goiás, a bola foi recuada e dois zagueiros ficaram trocando passes laterais por um tempo absurdo, até que alguém do Goiás perdeu a paciência e foi apertar, provocando o inevitável chutão. Nesse momento tive um horrível pressentimento. Um time que se entende como grande não joga com o resultado, joga com seu status de grande equipe. Tem obrigação de obedecer a multidão orgulhosa, que avaliza a grandeza do clube cantando e gritando, e partir para cima do adversário sem medo e sem covardia. Dirão que falta jogador. Sim, se o adversário fosse o São Paulo, o Santos, o Corinthians. Mas não o Goiás.

Só a torcida está convencida da grandeza do clube. Ela lota estádio e mais estádio, submetendo-se a decepções a que nenhuma outra se submeteria. O clube só continua grande por ação e graça de seus torcedores, e unicamente por causa deles. Nenhum time perdeu tanto em seu próprio campo, para adversários fracos, medíocres, estupefatos diante da vitória. E a torcida em um espetáculo comovente não desiste, não diminui, não se entrega de jeito nenhum.

Pra que arena? Essa torcida não precisa de uma arena, precisa de alguém que a represente no vestiário, no interior do clube, nas entranhas da associação, e que infunda moral e confiança ao time. E que exerça o sagrado autoritarismo de proibir expressamente táticas e atitudes que atentem contra a grandeza do clube. Há pouco saiu um livro chamado "Ponte Preta - a torcida que tem um time", de André Pecora e Stephan Campineiro.

Sugiro que algum palmeirense de talento, o poeta Régis Bonvicino, por exemplo, escreva um livro, e já me ofereço para colaborar com o título: "Palmeiras - a torcida que não tem um time". Talvez, aliás, ela nem precise mais. Talvez essa torcida magnífica tenha tomado para si, independentemente dos resultados, dos dirigentes e do resto, a defesa do nome e da grandeza desse clube. E, se alguma coisa puder mudar essa situação humilhante, ela virá dessa multidão que, sem arena, sob chuva, sol, e mal-acomodada, enche qualquer estádio para ver esse time perder.

Antero Greco escreveu sobre o mesmo assunto na sexta-feira, uma boa razão para eu mudar minha coluna. Não pude, desta vez não deu. Desculpe, Antero.

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