Uma vida sobre as ondas: Sucesso no surfe une família em Maresias

Os irmãos Miguel e Samuel Pupo podem garantir juntos suas vagas no Circuito Mundial

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 04h30

No curto caminho de sua casa até a praia em Maresias, no litoral norte paulista, Miguel Pupo se abaixa e pega uma garrafa plástica que estava jogada na areia. Leva até o lixo mais próximo e continua caminhando, com sua prancha debaixo do braço e ao lado do irmão Samuel, que carrega o pesado troféu, símbolo de sua conquista mais recente em Portugal. A tranquilidade dos dois contrasta com a perspectiva de um grande feito que se aproxima.

A família Pupo está ansiosa para a disputa das duas últimas etapas do ano do QS, a segunda divisão do Circuito Mundial de Surfe. Os irmãos Miguel e Samuel deram um show nas etapas europeias e agora têm tudo para carimbar em Haleiwa e Sunset Beach, eventos que distribuem 10 mil pontos aos campeões e valem pela Tríplice Coroa Havaiana, o acesso para a elite da modalidade no próximo ano.

Miguel Pupo, de 27 anos, já esteve entre os melhores durante oito temporadas. Mas em 2018, sem conseguir a vaga, disputou nove etapas sempre como substituto de algum atleta machucado. E neste ano teve de correr atrás de sua vaga fixa no QS. Com 21 mil pontos, está na quarta posição e tem tudo para conseguir. Desse total, 15.750 ele conseguiu na perna europeia, principalmente após vencer o Galicia Classic Surf Pro.

Já Samuel é o caçula da família e aos 18 anos sonha fazer sua estreia fixa no Circuito Mundial em 2020. Recentemente, ganhou o Billabong Pro Ericeira e com os 10 mil pontos saltou para a 9.ª posição no ranking do QS. Os dez mais bem colocados garantem vaga na elite em 2020. “Ele estava depois da centésima colocação antes de irmos para a Europa, mas com os bons resultados em três eventos, subiu muito no ranking”, conta Miguel.

Suporte

A trajetória de ambos na temporada foi distinta. Miguel, mais experiente, sofreu com a falta de apoio. “Eu cheguei a ficar desacreditado por um instante, perdi patrocínio, mas na minha vida pessoal foi tudo perfeito. Minhas filhas são meus maiores troféus”, diz, sobre as pequenas Luna e Serena. “Sem apoio, acabei desanimando, isso refletiu no meu surfe e os resultados não vieram. Passei por um momento difícil”, continua.

Ele e o pai bateram em muitas portas atrás de um patrocínio principal, e quando tudo parecia sem solução, ouviram o sim do empresário Rodrigo Pacheco, proprietário da construtora Nosso Lar. “Ninguém queria apostar em mim, mas ele falou que era uma honra estar no time dele”, comenta Miguel.

Já Samuel possui desde os 12 anos contrato com a Rip Curl, empresa que também patrocina Gabriel Medina. Pouco antes de viajar para a Europa, ele renovou por mais três anos e festeja o longo vínculo. “Ela vem me acompanhando desde pequeno e para mim é muito importante devolver essa confiança que sempre depositou em mim”, diz o surfista.

Essa não é a única semelhança que Samuca tem com Gabriel Medina. Assim como o bicampeão mundial, ele também venceu o Rip Curl Grom Search Internacional, evento que serve para a marca de surfe descobrir novos talentos. O garoto de Maresias também tem no currículo o 3.º lugar no Mundial Pro Júnior no ano passado. Todos que acompanham a carreira de Samuca sabiam que era questão de tempo ele despontar no surfe.

“Sendo o mais novo, sempre teve expectativa maior em cima de mim. Consegui deixar isso de lado e minha paixão era competir. Ter o Miguel como irmão foi uma vantagem, pois disputava campeonatos amadores e ele me ajudava. Ter ele e meu pai, dois incríveis surfistas como espelho, é fantástico”, diz.

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Pai é inspiração para trajetória dos irmãos Pupo no surfe

Wagner Pupo elogia os filhos Miguel e Samuel e admite que os dois já o superaram faz tempo na modalidade

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 04h30

A relação de Miguel e Samuel com o surfe vem por grande influência do pai. Wagner Pupo foi um bom surfista nacional e que ficou por 16 anos na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Ele tinha uma escolinha de surfe no litoral norte e os garotos cresceram nesse ambiente. Dominik, sua outra filha, também surfa, mas optou por seguir outro caminho profissional.

E foi com esse núcleo familiar ligado às ondas que a dupla tomou gosto pelas pranchas. “Eles já estavam desde pequenos nisso. Sempre levei a família para os campeonatos e mantive eles naquele ambiente. Eles foram crescendo vendo eu competir, depois o Samuel via o Miguel competir e a gente foi integrando a família cada vez mais e mantendo essa tradição de competição”, revela Wagner.

Ele garante, inclusive, que seus garotos já o superaram faz tempo. “Eu ganhei eventos nacionais e fui quinto melhor do Brasil. Não tive muitas oportunidades de patrocínio, mas fui Top-16 da Abrasp (Associação Brasileira de Surf Profissional) durante 16 anos. Sou um dos recordistas de permanência. Mas agora os dois me superaram. O esporte evoluiu, eles estão super bem e espero que eles realizem o sonho deles que é ser campeão mundial.”

Aos 51 anos, o pai é a referência para os filhos e às vezes surfa junto com eles. Mas Wagner costuma ficar mais fora da água, ajudando os irmãos na parte técnica. Jeane, a mãe, também participa muito da carreira dos filhos, Ela sempre viaja com Miguel e principalmente Samuel, que já disputava competições internacionais sendo menor de idade. Caso eles consigam a vaga no Circuito Mundial em 2020, a família vai acompanhar em algumas etapas, incluindo Bruna, mulher de Miguel, e as filhas Luna e Serena.

Quatro perguntas para...

Wagner Pupo, ex-surfista profissional

1. Você já percebia que seus filhos teriam futuro no surfe quando ainda davam as primeiras braçadas?

É complicado, pois às vezes o pai vai na empolgação e acaba forçando. Desde o início percebi que eles tinham muita vontade em querer fazer parte desse mundo da competição do surfe. E realmente tinham talento. Só incentivei e nunca forcei, e acho que isso foi meu maior mérito.

2. Você imaginava que os dois poderiam estar juntos na elite e com chances de isso ocorrer agora?

A gente sempre acreditou. O Samuel, apesar de bem pequeno, desde cedo mostrava ser um excelente atleta e que iria chegar em breve na elite. Mas existe a parte mental, e ele estava com essa cobrança muito grande. Agora conseguiu se tranquilizar e enxergar a situação de outra forma.

3. E o Miguel, que já esteve lá na primeira divisão, mas acabou saindo e não voltou?

Eu acho que foi bom ele ter saído um pouco, pois de fora conseguiu enxergar algumas coisas e teve um crescimento. Ele vem mais maduro e mais forte, até para brigar pelo título. Estamos nessa ansiedade de ter os dois filhos no Circuito Mundial. Eu que estou nisso há mais de 30 anos, é uma realização. A gente espera que isso aconteça. Aí só vamos ter de apertar o coração na torcida pelos dois, mas em dobro.

4. Na sua época, o mercado do surfe era muito pior. Como vê esse momento da modalidade?

Era um outro universo e o mercado do surfe era pequeno. O surfe não era bem visto, era um esporte marginalizado. Eu e minha esposa acreditamos e fomos firmes nesse sonho. A gente seguiu e deu certo. Claro que passamos dificuldades, mas hoje temos a família toda nisso.

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