Vacas sagradas

Na semana passada, eu fiz aqui uma provocação sobre o verdadeiro sentido das pré-temporadas dos clubes brasileiros. A repercussão foi boa, com muita gente me escrevendo (ou twitando, facebookando, etc.) para comentar o assunto. Pois hoje vou investir um pouco mais na linha das provocações. Procurarei cutucar com vara curta duas outras vacas sagradas do futebol. Vamos a elas.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2012 | 03h04

A primeira vaca me foi apontada por um amigo com o qual eu assistia a um jogo da Libertadores. A partida era complicada, cheia de variações táticas e até uma criança podia prever que o técnico da equipe brasileira teria que fazer alterações se quisesse ganhar o jogo. No entanto, enquanto os torcedores acompanhavam cada lance no gramado sem piscar, os reservas da equipe, que seriam acionados a qualquer momento, ficavam no fundo do gramado, próximos da pista de atletismo, de costas para o campo, alheios a tudo o que acontecia nas quatro linhas.

Qual o sentido disso? Tudo bem que o aquecimento é importante, mas ele não pode ser feito em local mais próximo do gramado, para que entre uma corridinha e outra os reservas possam ler o jogo? O que é melhor, um jogador que entra aquecido e sem nenhuma informação além daquela preleção relâmpago, feita pelo técnico antes de mandá-lo a campo, ou um jogador menos aquecido, mas que viu que os laterais estão avançando muito e se jogar nas costas deles poderá encontrar o caminho do gol?

Esse é mais um efeito do que comentei aqui na semana passada: a infantilização dos jogadores. Tratados como criancinhas incapazes de pensar sobre o jogo, devem ser chamados somente na hora de ir a campo. Se fossem tratados como adultos, o técnico poderia conversar com eles sobre o andamento da partida e, inclusive, ouvir suas opiniões. Gérson e Didi, apenas para citar dois gênios, foram grandes técnicos dentro de campo. Mais recentemente, vimos Zidane assumindo tal postura. Já no futebol brasileiro, jogadores que pensam parecem ser a maior das ameaças. Os treinadores os odeiam, o que é uma pena - e ajuda a explicar como caímos para a sexta posição do ranking mundial de seleções.

Outra vaca sagrada do futebol mundial é a tradição dos jogadores se ajoelharem na hora das decisões por pênaltis. Nada contra a religião de cada um, mas não parece estupidez, do ponto de vista da preparação física, vermos atletas ajoelhados por dez, quinze minutos, depois de terem corrido outros 120, entre tempo normal e prorrogação?

Não dá para rezar de pé? Qualquer um que já correu por um bom tempo sabe que a última coisa que devemos fazer após o esforço é ficar ajoelhado. Tenho a impressão de que os atletas mal conseguem andar direito depois de se erguerem dos joelhos - que dirá bater bem na bola.

Na recente decisão da Copa Africana de Nações, Zâmbia ganhou da poderosa Costa do Marfim (que tinha meia Premier League no time). Para espantar a pressão, os jogadores de Zâmbia entoavam cantos tribais. Sunzu, que fez a cobrança decisiva, simplesmente bateu o pênalti cantando. Zâmbia campeã. Quem canta seus males espanta. Sendo assim, que tal continuarmos espantando as vacas sagradas do nosso futebol?

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