Vai entender...

Coerência não é necessariamente traço de inteligência nem denota firmeza moral. Confio em pessoas com dúvidas, até mais do que naquelas com convicções inabaláveis. Donos da verdade metem medo e tendem a ser autoritários. Uma pitada de incoerência faz bem à vida; mas algumas atitudes incongruentes chocam.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2012 | 03h06

A volta de Kaká à seleção, depois de dois anos e tanto de ostracismo, é exemplo para ilustrar o bate-papo de hoje. Em princípio, se deve festejar o resgate de um profissional sério, dedicado, talentoso, de perfil afável. Enfim, o bom sujeito, bem família, de quem é raro não sentir simpatia. Fora essas características, ostenta currículo de respeito com a camisa nacional. Ausência, portanto, sentida desde o fim da era Dunga, em 2010.

Estranho é o ressurgimento neste momento, justo quando menos se falava dele - e por motivos diversos. Kaká não vive período brilhante na carreira, enfrenta indiferença quase acintosa de José Mourinho, técnico do Real Madrid, a ponto de não ter atuado um minuto sequer nos cinco primeiros jogos da equipe no atual Campeonato Espanhol. De quebra, sua convocação foi sistematicamente rechaçada por Mano. Pra quem deseja refrescar a memória, basta dar um google que aparecem diversas passagens em que, naquele tom monocórdio, o professor dribla o tema embaraçoso.

A mais recente? Vamos lá. Dez dias atrás, antes do primeiro duelo com a Argentina, nessa mistificação apelidada de Superclássico das Américas, o treinador se referiu a Kaká, em entrevista a uma emissora de rádio, em Goiânia. Lamentou a fase delicada que o rapaz atravessa e deixou claro o quanto era necessário ritmo de jogo. "A parte mais difícil para um jogador é não poder desempenhar dentro do campo aquilo que seja sua condição. Assim se perde o parâmetro do jogador quando ele não joga. O jogo dá essa condição de saber se o jogador está bem, e o Kaká vem passando por dificuldades. E o que vale para ele vale para outros grandes jogadores."

Mais do mesmo, o enésimo sinal de que Mano via Kaká como carta fora do baralho - e não havia incoerência nisso. O meia não tem sido aproveitado com regularidade no clube, mas foi escalado para a partida festiva de anteontem com o Millonarios, da Colômbia, em que marcou três gols nos 8 a 0. Que farra!

Pois bem. Mano divulga a relação dos escolhidos para enfrentar as potentes equipes de Iraque e Japão, dentro de algumas semanas, na Europa, e para surpresa geral lá consta o nome de Kaká. Como é possível isso, já que praticamente continua encostado, no quesito escalação? Não casa com o que Mano tem dito. Ele explica: está acompanhando dedicação do atleta nos treinos.

Até aí não há novidade. Que Kaká tem conduta profissional irrepreensível quem segue o futebol sabe. A questão é saber o que fez Mano mudar de ideia. Isso não falou, nem lhe foi perguntado com ênfase na coletiva. Não vejo nada de desabonador se admitisse que reviu posição e chegou à conclusão de que precisa de alguém experiente - e com valor - para aliviar o fardo dos mais jovens. E lhe ocorreu apelar para Kaká, mesmo sem preencher requisitos que considera imprescindíveis. Seria bacana e simples. A justificativa oficial foi inconsistente.

Kaká à parte (que tenha boa sorte), continua o desprezo da CBF pelo Brasileiro. O torneio pega fogo e times serão desfalcados para dois jogos mequetrefes. Isso é escárnio. Por que não se fez uma pausa? Ah, o calendário... E não se chamou mais de um do mesmo time... sei. Por acaso, Neymar tem "peso um" no Santos?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.