Valdivia, Pato e Cristiano Ronaldo

Boleiros

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2008 | 00h00

Vibrei muito com o jogo do Palmeiras contra o São Caetano no sábado. Por quê? Porque comentar futebol tem muitas serventias, como a de entender melhor esta cultura bipolar, em que ídolos são forjados e derretidos em questão de instantes, mas acima de tudo porque gosto de ver bom futebol. Não confundo futebol com peça ou filme, mas é um esporte que pode ser interessante e belo, e que fica ainda mais interessante quando belo. Desde que me dedico a este ofício jamais abandonei uma crença fundamental: a de que não existe essa opção entre futebol-arte e futebol-de-resultado, velha dicotomia na opinião nacional. Futebol bem jogado enche os olhos e estufa as redes.O primeiro tempo do Palmeiras foi melhor do que o segundo. Mas isso é natural, dada a superioridade no primeiro, e foi no segundo que saiu o gol de Valdivia culminando uma seqüência de toques de qualidade. A jogada começou na esquerda e foi parar na direita, de onde veio o passe para o chileno dominar e driblar com sua habilidade, dentro da área, e finalizar com consciência. Time que funciona é assim: sabe o momento certo de envolver e o de atacar, sabe combinar o passe eficiente e o lance individual, a tática e a técnica, o talento e a objetividade. Se às vezes enfeita demais ou faz provocações, é para mexer com o moral do adversário, não por máscara.Outra vantagem dessa boa fase do Palmeiras é contradizer mitos em alta como o de que o futebol "moderno" pede nove jogadores "atrás da linha da bola", mais tempo dedicados a combater, a marcar "por pressão", do que a criar. Felizmente começam a ressurgir times que sabem que passes de qualidade e ações ofensivas também são formas de "não deixar o adversário jogar". Ter três jogadores no ataque voltou a ser possível, principalmente quando são três grandes jogadores, com categoria e faro de gol - a exemplo do Manchester de Cristiano Ronaldo (que marcou mais um ontem), Rooney (idem, como homem de área) e Tevez. Como escrevi na semana passada, o desejo de gol dá vida à técnica.O próprio São Paulo começou a jogar melhor, o que significa mais bonito, ainda que não tenha jogadores surpreendentes. Por já não depender tanto de Adriano, pois Borges divide a artilharia com ele, o próprio Adriano melhorou: está se movimentando mais e sendo menos fominha; ao mesmo tempo, voltou a marcar gols. Não existe contradição alguma entre ter função tática e ser matador. O Santos de Leão (técnico com apenas um título estadual em seis anos), por exemplo, sentiu falta de alguém para dividir com Kléber Pereira a tarefa de incomodar a defesa adversária; Molina chegou tarde e não basta. E o Corinthians continua a sofrer com a ausência de atacantes de estirpe.A seleção brasileira, pelo visto, começa a superar essa fase. Com Pato, finalmente vê um "9" no fim do túnel. O gol contra a Suécia resumiu tudo que tenho dito aqui: um chute de primeira, de esquerda, que mostrou presença de espírito e autoconfiança. Ainda que não se devam depositar todas as esperanças nele como um novo Fenômeno (que no Milan, por sinal, fez menos gols nas dez primeiras partidas do que o velho Fenômeno), eis mais um candidato a craque goleador que pode fazer história. Que o futebol não nos pare de oferecer Cristianos Ronaldos, Valdivias e Patos para encher os olhos e estufar as redes.

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