Valdivia tem direito a comissão pela própria negociação

Empresa controlada por seu pai pode receber R$ 1,8 mi do Palmeiras, que direcionou 27% do negócio a intermediários

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

O fato de não render em campo o que se espera dele e de ser figura frequente nas baladas paulistanas, como revelou o próprio presidente do Palmeiras, Arnaldo Tirone, em entrevista ao Estado, não são os únicos problemas que incomodam a direção alviverde em relação ao chileno Valdivia.

A contratação do meia-atacante está cercada de episódios mal explicados que serão analisados pelo Conselho de Orientação e Fiscalização (COF).

Mas dois detalhes chamam especial atenção: pelo menos quatro empresas receberam comissão pela negociação. E uma delas é controlada pelo pai do atleta.

O chileno acertou sua volta ao Palestra Itália em julho do ano passado. Para tirá-lo do Al-Ain, do Catar, o Palmeiras, depois de várias tentativas do então presidente Luiz Gonzaga Belluzzo, se comprometeu a pagar na época 6,25 milhões (R$ 14,3 milhões).

O valor foi considerado alto até mesmo por correligionários de Belluzzo, mas o dirigente decidiu assumir a contratação e conduzi-la praticamente sozinho.

"Confesso que não acompanhei esse processo. Sabia por alto, pois ele foi conduzido diretamente pelo presidente, que sonhava em trazer o jogador", lembrou o ex-vice presidente de futebol, Gilberto Cipullo. "Mas reconheço que foi estranho, pois fugiu um pouco da praxe vista em negociações desse tipo."

Naquele momento, a possibilidade de reunir no mesmo time todos os ídolos recentes do clube - o atacante Kleber, o goleiro Marcos e o emia Valdivia, todos sob a batuta de Luiz Felipe Scolari - fez com que não se prestasse atenção no modelo do negócio.

No início deste ano, quando a nova diretoria assumiu e deu início a um levantamento para saber a quantas andava a situação do departamento de futebol, percebeu que pelo menos quatro empresas receberam comissão pela negociação de Valdivia: RB Negociações Esportivas S/C Ltda., Galáxia Soccer Assessoria Desportiva Ltda., RBZ Consultoria Desportiva e Valdivia Sports.

No caso dessa última, a razão social com o nome do atleta despertou suspeitas. Mas havia outro indício: além de Valdivia, seu pai, Luis Valdivia Duran, também assina o documento.

Porcentual incomum. A estranheza, porém, não para por aí. Considerados os valores recebidos apenas por essas quatro empresas, chega-se a R$ 3,88 milhões pagos aos intermediários, o que representa 27% do total da negociação - a média de comissão praticada pelo mercado em transferências é de 10%.

"Estamos falando de um valor quase três vezes maior do que o praticado", observou o ex-presidente e conselheiro do clube Mustafá Contursi.

A divisão dos pagamentos também é curiosa. O maior valor foi pago à empresa de Valdivia (R$ 1,84 milhão; salário e luvas foram negociados à parte), seguida por RB (R$ 1,39 milhão), RBZ (R$ 506 mil) e Galáxia (R$ 146.638,50). "No mercado, o costume é que a parte responsável pelo pagamento de comissões é a que vende. Basta ver quando compramos um imóvel", observou Contursi. "Só que nesse caso, o Palmeiras banca esse dinheiro."

Ajuda bem-vinda. Questionado pelo Estado a respeito do modelo adotado na transferência de Valdivia, Belluzzo afirmou que todas as partes remuneradas exerceram papel importante para concretizar o negócio.

"Negociar com aquele pessoal do Catar não é fácil. É preciso ter gente ajudando em várias frentes", explicou. Mas para que pagar comissão ao próprio atleta, por meio de uma empresa controlada por seu pai? "O pai do Valdivia nos ajudou muito nessa missão. Nos deu várias diretrizes de como proceder para fechar o negócio."

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