Valeu a pena ter ficado

Três anos de tirar o fôlego e o entusiasmo de qualquer grande equipe. A Renault, uma das marcas mais tradicionais da indústria automobilística, passou pelo maior escândalo da história da Fórmula 1, o "crashgate de Cingapura" ocorrido em 2008 e revelado em 2009, perdeu seu grande astro Fernando Alonso para a Ferrari e logo no início da temporada de 2010 constatou que não tinha carro para fazer um bom campeonato. Receita infalível para levar uma grande marca a se retirar da F-1, como fizeram Honda e Toyota. Mas por ter deixado de ser apenas uma montadora pondo dinheiro em um saco sem fundo, e agora dividindo a responsabilidade com investidores que têm a missão de colher resultados na pista e lucros na operação, a Renault não desistiu.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

A persistência foi premiada. Primeiro, por contar com um profissional como Robert Kubica, que, por si só, é garantia de bons resultados. Kubica alcançou três pódios e 136 pontos no campeonato, seis a menos que Nico Rosberg, da Mercedes-Benz, e oito a menos que Felipe Massa, da Ferrari. Ele terminou o ano em 8.º no Campeonato de Pilotos e levou a Renault ao 5.º lugar no Mundial de Construtores. O prêmio maior surgiu da parceria com a Red Bull - o motor Renault é campeão do mundo. Tanto quanto o excepcional chassi criado por Adrian Newey.

Muito da evolução no desempenho da equipe Renault durante o ano se deve à administração de Eric Boullier, um homem que hoje ocupa a posição que era de Flávio Briatore. E que encontrou, como maior desafio quando aceitou a função, a necessidade de "exorcizar o fantasma Briatore", como confessou à revista AutoHebdo, a especializada mais lida na França. Não foi pouco o que a Renault pagou pelo pecado de ter deixado a chefia nas mãos de Briatore, um homem que acumulava também a função de gerenciar carreiras de pilotos dela e de outras equipes. Se isso lhe era permitido, dentro da prepotência com que costumava administrar aquele seu feudo, logicamente concluiu que seu poder não tinha limites. A ele tudo era permitido, até mesmo fraudar o Mundial assinando a fraude com o nome da Renault. Vilão com audácia para marcar história.

A Renault está apagando o capítulo aos poucos. Antes de Boullier conseguir fechar a equipe do jeito que pretende, falta ainda resolver a composição acionária e até o nome da escuderia, desde que apareceu a Lotus no negócio. No momento o plano é correr como Lotus Renault, mas a briga na Justiça entre Dany Bahar, dono da montadora malaia Proton, e Tony Fernandes, que disputou o último campeonato como Lotus Racing, tem criado dúvidas na cabeça do torcedor. Enquanto isso, os engenheiros trabalham para dar a Kubica um carro melhor. Além de talento suficiente para brigar por vitórias, o polonês é um piloto que pensa no trabalho de equipe. Sabendo das limitações de Vitaly Petrov, ele chegou a pedir a contratação de um companheiro mais experiente. Kubica não é do tipo que foge da concorrência. Ao contrário, quer um companheiro que exija mais dele.

Não foi possível. O grupo Genii, que veio aumentando sua participação na sociedade com a Renault e já pode ter chegado a 100% das ações, tem fortes ligações com o governo russo e, em especial, com Vladimir Putin, que apoia o piloto Vitaly Petrov. Diante disso, restou a Kubica pedir que Petrov se dedicasse mais. Depois ainda veio aquele final de Abu Dabi, em que o russo segurou Alonso atrás dele por 40 voltas, e isso ajudou a garantir o apoio de Putin por mais algum tempo. A Renault confia na dupla, que pode dar certo, principalmente se Petrov se espelhar em Kubica. O polonês, já há quatro anos um nome constante nas listas de contratações de Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull, merece um carro para lutar pelo título. Essa é a mais dura missão da Renault, com ou sem o nome Lotus no carro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.