Valha-me, S. Jorge!

Já vi muito campeonato enroscado, mas este supera expectativas. Faltam só duas rodadas para o fim e o trio Fluminense, Corinthians e Cruzeiro continua no páreo, na base do ponto a ponto. Na teoria (arrisco a dizer na prática), o tricolor carioca abre grande vantagem, pois depende só de seu esforço. Os mineiros precisam torcer por tropeços dos rivais; os paulistas reforçam a quantidade de velas votivas acesas para São Jorge. O santo guerreiro mais do que nunca tem de vir em seu auxílio para salvar o ano do centenário.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

A sorte alvinegra começou a azedar, na terra do Senhor do Bonfim, a partir dos 27 minutos do primeiro tempo, quando ainda sustentava a vantagem de 1 a 0 diante do Vitória. Num lance normal, Ronaldo levou a mão à coxa, caiu, fez cara de dor e se viu obrigado a sair de cena.

O Fenômeno carregou consigo, para fora de campo, a dose de surpresa que nas últimas semanas repôs o Corinthians na rota do penta. O astro não vive fase extraordinária, nem estou a supervalorizar sua participação, já que esteve ausente da maior parte da campanha na Série A de 2010. Mas sua presença desperta preocupação redobrada nos adversários. Sem contar que o senso de colocação e a precisão nos passes desmontam defesas.

Ronaldo brilhou alguns minutos antes da contusão. Como tem acontecido com regularidade, ele perambulava pela intermediária, como quem estivesse a passear, a olhar a paisagem, aparentemente desligado do jogo. Na base do me-esqueçam-por-favor. De repente, Danilo rouba a bola e lhe faz o passe. Ronaldo devolve com rapidez e o deixa na cara do gol, para silenciar uma ala do Barradão.

Sem Ronaldo, o Corinthians voltou a ser time comum, como tantos que há no Brasileiro. Aplicado, com alguns jogadores talentosos e sem o toque da genialidade. Iarley entrou no lugar do ídolo, brigou, suou a camisa, levou o desafio a sério, assim como Jorge Henrique. Só que nenhum dos dois tirou o sono da zaga baiana nem criou lance de perigo. Não foram capazes de arrancar um simples ohhhh! de emoção de seus fãs.

No primeiro tempo, mesmo depois de levar o gol de empate (não vi intenção de Ralf pôr a mão na bola no pênalti) e já sem Ronaldo, até que o Corinthians trocava passes, ditava o ritmo do jogo, ignorava o desespero de um anfitrião com a corda no pescoço. Tudo parecia estar sob controle. No segundo, acelerou o passo, preocupado com as notícias que chegavam de São Paulo. À medida que saíam os gols do Fluminense, aumentava a necessidade de triunfo.

Daí prevaleceu o time rotineiro, que se enredou sozinho no antepenúltimo desafio da luta por um título em ano pra lá de especial. O meio-campo travou, o ataque sumiu e a defesa se desdobrou para conter a avalanche rubro-negra. Houve um lance, que passou batido, mas me chamou a atenção. Júlio César defendeu um chute de Henrique e, na sequência, trombou com o atacante e o derrubou, por trás. Episódio parecido com aquele de Gil, que resultou em pênalti sobre Ronaldo na semana passada, Simon ignorou, com o que concordo. Não concordei foi com Sandro Ricci.

No fim do jogo em Salvador, pairou a sensação de que ficar com a taça já não depende de bom desempenho dos atletas. São Jorge foi convocado a dar forcinha extra, calibrar os chutes de Roberto Carlos & Cia. e, quem sabe?, segurar Flu e Cruzeiro.

Tarefa difícil até para um santo, porque os outros concorrentes desembestaram a fazer gols neste domingo. Tanto Flu quanto Cruzeiro estiveram endiabrados e atropelaram São Paulo e Vasco. Alucinante a forma como sufocaram - o Cruzeiro desatou o nó já na primeira etapa, enquanto Flu deslanchou na segunda. O São Paulo aguentou até ficar com dois a menos - depois, foi uma festa tricolor (carioca). Aliás, o que deu em Xandão e Richarlyson? Um recebe vermelho, por ser o último na marcação. O outro tem novo piti, após falta tosca. Derrota embaraçosa, mesmo que sua torcida tenha vibrado.

O Corinthians que torça pelo imponderável, porque não pode esperar grande coisa de Palmeiras e Guarani, rivais que restam para o Flu chegar ao título, após 26 anos de espera.

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