Vanderlei não se preocupa com segurança

A presença de Vanderlei Cordeiro de Lima ainda provoca curiosidade. Nenhum dos brasileiros que está em Helsinque, Finlândia, para o Mundial de Atletismo, foi procurado pela imprensa estrangeira, mas Vanderlei falou ao francês Le Monde, ao português Público e a outros jornais, rádios e TVs. E quase um ano depois - no dia 29 de agosto de 2004, ganhou o bronze na maratona olímpica, após ser agredido por um ex-padre irlandês quando liderava a prova - as perguntas ainda cercam o fato, que passou para a história do atletismo. Vanderlei disputa sua segunda maratona este ano, no Mundial de Atletismo, neste sábado, a partir das 8h30, e garante que não se preocupa com a segurança. Um ano depois do bronze comentou sobre o padre, a fama, o esporte... E disse que prefere não ter expectativa sobre o resultado do julgamento da Corte Arbitral de Esportes (CAS) - o Comitê Olímpico Brasileiro pediu que o ouro da maratona olímpica, medalha ganha pelo italiano Stefano Baldini, seja entregue também a Vanderlei. Agência Estado - Como é o percurso da Maratona do Mundial? Vanderlei - É um percuso em voltas, bom para mim. A primeira volta servirá para eu analisar a prova e depois tentar uma estratégia. Como é um percurso variado, com leves subidas, acho que me favorece pelo trabalho que fiz em Paipa (COL). AE - O caminho será cercado por grades. Vanderlei - A segurança não me preocupa. Acho que estão cercando para evitar que as pessoas andem pelo percurso, já que ele está montado no centro da cidade. Eles não estão pensando tanto em segurança, que aparecerá outro louco. AE - O piso tem trechos de paralelepípedos e trilhos de bonde. Vanderlei - Tem irregularidades. Para quem é rápido não vai ser bom. Mas acho que favorece os brasileiros, faz com que tenhamos um pouco mais de chance de estarmos entre os primeiros. AE - O jogo de equipe será importante para a Copa do Mundo? Vanderlei - O Brasil tem uma equipe bem homogênea. Nos Mundiais e Copas do Mundo das quais participou nunca teve uma equipe tão boa como essa. Mas, apesar de ter a classificação por equipe, a corrida vai ser individual. Todos estão bem preparados. A qualidade individual da equipe prevalecerá na classificação. AE - Quem deve ser marcado aqui? Vanderlei - O favorito aqui, por ter corrido bem em Atenas e por ter sido duas vezes medalha de bronze no Mundial, é o Stéfano Baldini. Acho que veio para tentar o campeonato. Talvez eu faça a corrida esperando uma tática dele. É claro que na maratona sempre há muitas questões envolvidas, como as condições do clima e como cada atleta estará se sentindo no dia. Nesse tipo de circuito, com três voltas de 10 km, é possível observar os adversários, na primeira volta, antes de definir uma estratégia. AE - Que resultado te deixaria feliz? Vanderlei - Mundial é muito complicado. Será até mais difícil que a Olimpíada, até porque tem mais atletas. E é um campeonato em que os atletas arriscam mais - há um Mundial a cada dois anos. Vamos esperar para ver o que acontece. AE - Na Olimpíada, o Baldini disse que ganharia de toda forma. Isso te magoou? Vanderlei - Ele se manifestou, de forma convicta, dizendo que conseguiria a vitória de qualquer forma em Atenas, mesmo que eu não tivesse sofrido o acidente. É claro que depois da vitória é mais fácil falar. Mas não me importo. O importante foi ter obtido meu melhor rendimento e a medalha de bronze. Não sei se não tivesse acontecido aquilo eu não teria levado aquela maratona. AE - Ele é cordial? Vanderlei - Encontrei com ele aqui no café da manhã, me cumprimentou. Acho que a Olimpíada foi um caso à parte, mas sei que ofuscou a vitória dele. Ficou chateado, esperava mais respaldo da mídia. Nada vai mudar a história, aconteceu, ninguém tem culpa, mas qualquer atleta que ganhasse naquela situação ficaria aborrecido. Não tenho culpa. AE - Completa um ano da medalha de bronze, o padre e a fama que ganhou... Vanderlei - Tudo valorizou minha carreira. Com certeza ganhei com isso. Tive o reconhecimento da imprensa e do povo brasileiro. Com o reconhecido vem a cobrança. A expectativa se torna maior. Mas tenho lidado bem com isso, administrado esse fator psicológico. O resultado da Olimpíada, sem dúvida, foi muito importante para mim. Tenho em mente ainda superar esse resultado. Acredito no meu trabalho e potencial. A confiança e disciplina são fundamentais e minhas filhas me inspiram (Tayná e Any Caroline). AE - E as cobranças de que você não fez mais nada depois da Olimpíada? Vanderlei - Os resultados que eu esperava não vieram. Não era o dia, mas eu treinei tudo o que tinha para treinar. Maratona tem disso, várias coisas, como o clima, influenciando. Como só dependo de mim, algumas vezes, infelizmente, meu organismo me surpreende. Foi assim na maratona de Lake Biwa, a primeira que eu me preparei para correr após a Olimpíada (passou mal). Mas quando faço meu trabalho certinho, tenho confiança em alcançar um grande resultado. AE - Teve medo que essa sua vida de pop star prejudicasse o esporte? Vanderlei - Sempre tivemos grande preocupação com isso. Mas como outras pessoas tenho problemas na vida. Tive de aprender a administrar.Foi uma experiência nova aprender a lidar com a fama, mas de certa forma é bom porque é o reconhecimento do que eu estou fazendo. Em fase de treinamento, de competição, procuro não me ligar em questões paralelas. Foi o que fiz agora para o Mundial. Fiquei um mês isolado na Colômbia, treinando, descansando e me preparando. Sei que há grande expectativa. Quando eu saio do Brasil sempre escuto: traz uma medalha.O problema é que na maratona há muito mais coisas além dos adversários. AE - A Corte Arbitral de Esportes (CAS) julga o pedido para que você também receba uma medalha de ouro. Qual sua expectativa? Vanderlei - É uma decisão que deve sair por esses dias. Prefiro não ter expectativas. Sei a dificuldade que é julgar o que ocorreu, até porque foi um fato inédito. Mas se eles analisarem pelo lado das falhas técnicas da organização temos tudo para ter um resultado positivo. AE - Você fez 36 anos quinta-feira. Pensa em parar logo? Vanderlei - Quero encerrar minha carreira nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Tenho uma carreira bem planejada, correndo pouco e com qualidade. Acho que chego lá.

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