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Vazio existencial

O primeiro tempo do clássico não trouxe futebol. Foi um manual completo de instruções sobre o presente e o futuro de Palmeiras e São Paulo no campeonato. Depois de 15 rodadas, a exemplo da maioria dos treinadores brasileiros, Ricardo Gareca e Muricy Ramalho ainda possuem mais dúvidas do que certezas enquanto trabalham por uma formação ideal.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2014 | 02h03

Não existe, porém, paralelo entre suas equipes quando o ponto de partida da análise é a tabela de classificação. O São Paulo é cobrado porque rende menos do que prometem seus jogadores, considerando também o desequilíbrio entre a defesa e o resto do time.

O buraco do Palmeiras aumenta a cada rodada, é surreal. Jorge Valdívia tira um peso da instituição quando é vendido e enche o clube de esperança quando a negociação fracassa. Nos 13 minutos em que ficou em campo, o chileno foi a inspiração da equipe, o sopro do talento transformador capaz de fazer Gareca acreditar na primeira vitória dele no Campeonato Brasileiro.

Quando tudo indicava que Valdívia seria um problema para a zaga são-paulina, o mundo rodou. Ele sentiu tontura e foi substituído por Felipe Menezes. Naquele instante rodaram também as esperanças de vitória.

Do outro lado havia Ganso, Kaká e Pato, juntos e misturados, mas distantes do centroavante. Passe sem movimentação e infiltração é inócuo. A solução de Muricy foi adiantar Kaká, aproximando-o da área palmeirense, e de Pato, num movimento que criou algumas oportunidades de gol.

O jogo mostrou que mesmo em situações opostas, quando o assunto é rendimento, Palmeiras e São Paulo ainda não têm um futebol para chamar de seu. Não foram capazes de conectar investimento e trabalho para gerar qualidade compatível ao tamanho de suas estruturas.

São vítimas de uma epidemia que destroça o futebol brasileiro. Mas nem de longe se parecem, mesmo tendo chegado abraçados ao Pacaembu na busca por momentos melhores.

O São Paulo de Ganso e Pato é o maior desafio de um treinador tricampeão brasileiro com equipes aparentemente de menor poderio técnico, mas muito mais equilibradas. De 2006 a 2008, Muricy construiu grupos coesos, principalmente na distribuição de tarefas. Ou melhor, na conscientização das tarefas.

A desclassificação da Copa do Brasil pelo Bragantino, no Morumbi, depois de uma vitória fora de casa na partida de ida, é inadmissível. Não pelo resultado, pois o futebol prega peças, mas pela forma, pela crença de que ser o São Paulo bastaria para eliminar a esperança e a luta do pequeno interiorano.

É quando a situação se agrava. Além da corrida contra o tempo para encaixar seus talentos dentro de um modelo competitivo, o que não tem sido fácil, agora Muricy precisa explicar o significado de ambição e profissionalismo. O torcedor reconhece facilmente a diferença entre luta e rendição. E também enxerga a distensão entre os setores do time.

Se o São Paulo está assim, o que dizer do Palmeiras? O fim do turno se aproxima e nada acontece. A cada semana surge uma equipe diferente e um jogador é contratado. A missão até dezembro é permanecer na primeira divisão e acreditar na sequência do trabalho de Ricardo Gareca, mesmo dentro de um clube prá lá de instável e que, apenas a seu presidente, deve algo em torno de R$ 100 milhões.

O futebol brasileiro virou um conto de realismo fantástico. Não tem sido fácil separar ficção de realidade. Mas quanto mais surreal for, mais perto do fato estará.

Na sexta-feira, os jogadores do Grêmio Barueri negaram-se a enfrentar o Operário pela Série D do Brasileiro devido a meses de salários atrasados. Diante de arquibancadas vazias, o time mato-grossense deitou-se no gramado em apoio à causa dos colegas. A Copa do Mundo ampliou o vazio existencial do futebol por aqui. Gareca que o diga!

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