Velhinhos da Vila

A vitória do Santos no clássico de anteontem com o Palmeiras me fez lembrar episódio corporativo. Tempos atrás, dono de grande empresa passeava pelo escritório central, viu o ambiente de trabalho, o pessoal concentrado e comentou com um assessor: "Sinto falta de cabelos-brancos aqui". O industrial se referia à necessidade de mescla entre juventude e experiência para o negócio dele ir em frente.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

13 Março 2015 | 02h01

A historinha aplica-se ao Santos de início de temporada. Por aperto financeiro, a diretoria foi obrigada a abrir mão de vários atletas e faltou dinheiro para investir em profissionais em ascensão. A saída ficou no meio-termo, com o aproveitamento de mais pratas de casa e com a colaboração de figuras rodadas no futebol, casos do goleiro Vanderlei (31 anos), do meia Elano (33) e do atacante Ricardo Oliveira (35), os dois últimos com passagens anteriores pela Vila Belmiro.

O trio se juntou a Robinho (31), Renato (35) e Thiago Ribeiro (29), que já estavam por lá. Em princípio, a turma toda serviria para compor elenco e não deixar Enderson Moreira na mão, então com poucas opções para enfrentar o calendário. O treinador nem teve tempo para avaliar direito a contribuição deles, pois foi defenestrado de surpresa na semana passada, supostamente por não se entender nem com a ala jovem da trupe nem com as cobras criadas. Mas daí é outra conversa.

Os quebra-galhos, os vovôs da bola como muitas vezes são tratados no meio, não só têm dado conta do recado como se transformaram em protagonistas. Até agora no Campeonato Paulista, nada de Geuvânio (22), Gabriel (18), Allison (22) e outros de idêntica faixa etária. O eixo de equilíbrio da equipe se concentra nos que carregam muitos carimbos nos passaportes, acumulam milhagens aéreas, horas de concentração a perder de vista, assim como marcas de divididas nas pernas.

O Santos faz campanha impecável e surpreendente no torneio estadual pelo comprometimento e desempenho do bloco dos Velhinhos da Vila. A invencibilidade e os 23 pontos - 7 vitórias, 2 empates - tem a ver demais com gente que parecia pronta para a fila dos aposentados. Ricardo Oliveira talvez seja o exemplo principal. Andou sumido nas Arábias, retornou à procura de abrigo, encontrou brecha no elenco alvinegro e se destaca como um dos artilheiros, com quatro gols, ao lado de Robinho. No clássico da quarta-feira, fez o da vitória, num sutil toque para tirar a bola de Fernando Prass. Antes, serviria Renato no lance do empate.

Não sei se Ricardo Oliveira e outros veteranos aguentarão a empreitada; provavelmente, chegará um momento em que acusarão o golpe e serão utilizados com parcimônia. Dependerá da condição física, do calendário e da sensibilidade de quem vier a comandar o time. Importa que tenham espaço para mostrar-se produtivos e contribuam, de tabela, para derrubar o preconceito de que maturidade é sinônimo de obsolescência e inutilidade. Em qualquer atividade cabelos-brancos servem.

Sinal amarelo. Os clássicos viraram tormento para o Palmeiras. Nos últimos 15 duelos com rivais tradicionais, ganhou um - contra o São Paulo, no ano passado. Retrospecto preocupante, não agora, pois tem muitos pequenos pela frente e vai se classificar com um pé nas costas no Paulista. O nó virá nas fases decisivas, nas eliminatórias, quando provavelmente topará com desafios do calibre de Santos, São Paulo e Corinthians. Nessa hora terá de provar a grandeza que procura resgatar.

Conta outra. A CBF insiste em vender como coisa séria a "ameaça" (cabem as aspas) de tomar pontos dos clubes que atrasarem salários durante as competições de que participarem. A iniciativa parece saneadora. Perde força a partir do momento em que prevê medidas punitivas desde que jogadores prejudicados recorram à Justiça, seja por conta própria ou por meio de sindicato. E você acha que algum será tonto de abrir ação com torneios em andamento?

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