Velódromo nasce na Olimpíada para pulverizar os recordes mundiais

Arquitetura do Velopark propícia tempos menores nas provas de ciclismo de pista durante Londres 2012

Paulo Favero, estadão.com.br

23 de junho de 2012 | 07h53

SÃO PAULO - Chris Hoy, principal ciclista britânico e que tem o título de Sir na Inglaterra, ajudou a desenhar o velódromo de Londres, que receberá as provas de ciclismo de pista e que foi projetado para reduzir as marcas mundiais. Só no evento-teste, realizado lá em fevereiro, quatro recordes foram superados. E o projeto arquitetônico foi responsável por isso.

Segundo Sandro Tubertini, diretor no Brasil da BDSP, empresa responsável pela obra, a expectativa é grande para os Jogos de Londres. "Eles esperam bater uma série de recordes durante a Olimpíada. O próprio Chris Hoy a considera a melhor pista em que já correu e o resultado final ficou muito bom."

O brasileiro participou do projeto de construção do velódromo, que é uma das obras mais bonitas desta edição dos Jogos. Ele é feito a partir de uma estrutura em aço, porém foi revestido por madeira sustentável. No teto, claraboias permitem a passagem da luz natural, ajudando a reduzir o consumo de energia no interior do ambiente e se adequando aos conceitos de sustentabilidade.

"Nós fizemos a consultoria em sustentabilidade, elétrica, hidráulica, ar-condicionado e iluminação natural. Acho que o mais bacana é que a intenção foi projetar procurando a maior eficiência. A gente teve uma colaboração muito grande de três áreas: as engenharias de estrutura e de sistemas prediais, como ar-condicionado, aquecimento e hidráulica, e arquitetura."

Dono de cinco medalhas olímpicas e uma das maiores esperanças dos britânicos de fazer a festa em casa, Chris Hoy foi consultor do time de design no projeto. Ele transmitiu os conceitos de uma pista de ciclismo perfeita, capaz de propiciar ótimas marcas. O velódromo, que tem capacidade para 6.250 pessoas, atende um dos pedidos do atleta: trata-se de uma das poucas pistas de ciclismo no mundo que contam com torcedores em toda a volta de 250 metros. "Quando a curva é muito angulada, os projetistas não costumam colocar lugares para o público nesses locais. O Chris pediu e a equipe conseguiu resolver. Sempre tem gente em volta e isso é super-raro", diz Tubertini.

AMBIENTE CONTROLADO

Outro fator de suma importância, que aliado à qualidade da pista de madeira é fundamental para os ciclistas, é o ambiente interno do velódromo. A temperatura do ar fica em torno de 28ºC, considerada perfeita para os atletas pois não é quente demais, o que poderia desgastá-los, nem fria a ponto de aumentar a densidade do ar. Assim, a resistência e o esforço físico chegam a um grau de equilíbrio importante para auxiliar na velocidade da prova.

"É a Fórmula 1 do ciclismo. A densidade do ar tem impacto, a direção dele pode atrapalhar e não ter parte da pista mais clara ou mais escura também colabora. Qualquer milésimo faz diferença", afirma Tubertini.

Por isso, foi pensada uma boa distribuição de iluminação natural e as entradas do velódromo são feitas com portas duplas, mas com uma chicane. Isso não cria um distúrbio no ambiente, mesmo que mínimo. A estrutura do prédio também recebeu atenção especial. O formato da cobertura reduz o volume de ar na parte interna. Assim, gasta-se menos energia para aquecer o prédio e foi usado um sistema simples, mas inteligente, feito a partir de um sistema de cabos.

"O mais incrível é que o prédio não conta com ar-condicionado, só aquecimento. Ele é esfriado através de ventilação natural, pelas saídas e entradas de ar."

Segundo Tubertini, o maior desafio foi construir um prédio ao mesmo tempo extremamente econômico e eficiente. "Ele é menor do que o dos Jogos de Pequim. Se um dos banheiros não é utilizado por algumas horas, ele é totalmente desligado, não só a iluminação. O fato de ser bonito e estar sendo tão falado é resultado de uma estética que chama a atenção. O arquiteto quis dar a ideia de que o prédio está voando. O nível em que as pessoas entram é totalmente envidraçado e ele tem sistemas individuais de aquecimento."

BANHEIRO ESTRATÉGICO

O velódromo é um dos poucos ambientes dos Jogos de Londres que não sofrerão modificação após o evento. Ele teve um custo estimado de R$ 250 milhões e ficou pronto em fevereiro de 2011, sendo o primeiro equipamento esportivo do Parque Olímpico a ser inaugurado. Na pista, foi usado pinho siberiano, a mesma madeira do velódromo do Rio.

Outra novidade do velódromo é a localização de um dos banheiros, dentro do miolo da pista. A instalação atende a pedidos dos ciclistas, que ficam pedalando nas bicicletas ergométricas o tempo todo quando não estão competindo. Se tivessem de recorrer a um banheiro mais distante, perderiam o aquecimento dos músculos. Na parte externa, o projeto é complementado pela pista que receberá as provas de BMX, modificada porque os saltos estavam muito altos nos eventos anteriores aos Jogos. Os ciclistas reclamaram e as rampas foram alteradas. "Ela tem uma arquitetura que combina com o prédio."

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