Velódromo nasce para pulverizar os recordes mundiais

Arquitetura do Velopark propicia tempos menores nas provas de ciclismo de pista durante a Olimpíada

PAULO FAVERO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h11

Chris Hoy, principal ciclista britânico e que tem o título de Sir na Inglaterra, ajudou a desenhar o velódromo de Londres, que receberá as provas de ciclismo de pista e que foi projetado para reduzir as marcas mundiais. Só no evento-teste, realizado lá em fevereiro, quatro recordes foram superados. E o projeto arquitetônico foi responsável por isso. Segundo Sandro Tubertini, diretor no Brasil da BDSP, empresa responsável pela obra, a expectativa é grande para os Jogos de Londres. "Eles esperam bater uma série de recordes durante a Olimpíada. O próprio Chris Hoy a considera a melhor pista em que já correu e o resultado final ficou muito bom".

O brasileiro participou do projeto de construção do velódromo, que é uma das obras mais bonitas desta edição dos Jogos. Ele é feito a partir de uma estrutura em aço, porém foi revestido por madeira sustentável. No teto, claraboias permitem a passagem da luz natural, ajudando a reduzir o consumo de energia no interior do ambiente e se adequando aos conceitos de sustentabilidade.

"Nós fizemos a consultoria em sustentabilidade, elétrica, hidráulica, ar-condicionado e iluminação natural. Acho que o mais bacana é que a intenção foi projetar procurando a maior eficiência. A gente teve uma colaboração muito grande de três áreas: as engenharias de estrutura e de sistemas prediais, como ar-condicionado, aquecimento e hidráulica, e arquitetura."

Dono de cinco medalhas olímpicas e uma das maiores esperanças dos britânicos de fazer a festa em casa, Chris Hoy foi consultor do time de design no projeto. Ele transmitiu os conceitos de uma pista de ciclismo perfeita, capaz de propiciar ótimas marcas. O velódromo, que tem capacidade para 6.250 pessoas, atende um dos pedidos do atleta: trata-se de uma das poucas pistas de ciclismo no mundo que contam com torcedores em toda a volta de 250 metros. "Quando a curva é muito angulada, os projetistas não costumam colocar lugares para o público nesses locais. O Chris pediu e a equipe conseguiu resolver. Sempre tem gente em volta e isso é super-raro", diz Tubertini.

Ambiente controlado

Outro fator de suma importância, que aliado à qualidade da pista de madeira é fundamental para os ciclistas, é o ambiente interno do velódromo. A temperatura do ar fica em torno de 28ºC, considerada perfeita para os atletas pois não é quente demais, o que poderia desgastá-los, nem fria a ponto de aumentar a densidade do ar. Assim, a resistência e o esforço físico chegam a um grau de equilíbrio importante para auxiliar na velocidade da prova. "É a Fórmula 1 do ciclismo. A densidade do ar tem impacto, a direção dele pode atrapalhar e não ter parte da pista mais clara ou mais escura também colabora. Qualquer milésimo faz diferença", afirma Tubertini.

Por isso, foi pensada uma boa distribuição de iluminação natural e as entradas do velódromo são feitas com portas duplas, mas com uma chicane. Isso não cria um distúrbio no ambiente, mesmo que mínimo. A estrutura do prédio também recebeu atenção especial. O formato da cobertura reduz o volume de ar na parte interna. Assim, gasta-se menos energia para aquecer o prédio e foi usado um sistema simples, mas inteligente, feito a partir de um sistema de cabos. "O mais incrível é que o prédio não conta com ar-condicionado, só aquecimento. Ele é esfriado através de ventilação natural, pelas saídas e entradas de ar."

Segundo Tubertini, o maior desafio foi construir um prédio ao mesmo tempo extremamente econômico e eficiente. "Ele é menor do que o dos Jogos de Pequim. Se um dos banheiros não é utilizado por algumas horas, ele é totalmente desligado, não só a iluminação. O fato de ser bonito e estar sendo tão falado é resultado de uma estética que chama a atenção. O arquiteto quis dar a ideia de que o prédio está voando. O nível em que as pessoas entram é totalmente envidraçado e ele tem sistemas individuais de aquecimento", completa.

Banheiro estratégico

O velódromo é um dos poucos ambientes dos Jogos de Londres que não sofrerão modificação após o evento. Ele teve um custo estimado de R$ 250 milhões e ficou pronto em fevereiro de 2011, sendo o primeiro equipamento esportivo do Parque Olímpico a ser inaugurado. Na pista, foi usado pinho siberiano, a mesma madeira do velódromo do Rio.

Outra novidade do velódromo é a localização de um dos banheiros, dentro do miolo da pista. A instalação atende a pedidos dos ciclistas, que ficam pedalando nas bicicletas ergométricas o tempo todo quando não estão competindo. Se tivessem de recorrer a um banheiro mais distante, perderiam o aquecimento dos músculos. Na parte externa, o projeto é complementado pela pista que receberá as provas de BMX, modificada porque os saltos estavam muito altos nos eventos anteriores aos Jogos. Os ciclistas reclamaram e as rampas foram alteradas. "Ela tem uma arquitetura que combina com o prédio", conclui Sandro.

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