Vendo o jogo que eu não queria ver

Estamos nos transformando cada vez mais em torcedores via televisão. Há sempre uma boa razão para ficar em casa. Preço dos ingressos, violência, chuvas torrenciais, exigências dos guardadores de veículos, horários de intimidar os mais contumazes boêmios, etc, etc.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Algumas dessas razões certamente seriam intrigantes para ouvidos estrangeiros. Por que a chuva seria uma razão para não se ir ao estádio? Que significa "guardadores de veículos"? Bom, é mesmo difícil explicar essas coisas a quem não tem a ventura de morar em São Paulo. E acabamos ficando em casa vendo o que nos oferece a televisão.

A chamada televisão aberta nos dá apenas uma possibilidade: assistir ao jogo determinado pelo canal que detém todos os direitos de transmissão do futebol no País. Na verdade não há escolha: ou é aquele jogo ou nada. Um outro canal, num simulacro de pluralidade, também transmite futebol. Só que o mesmo jogo. Sim, senhores, a mesma partida é transmitida por dois canais de TV, ignorando todos os demais jogos que transcorrem no mesmo momento.

Humor negro. Qual o sentido desse exercício de humor negro que, estou certo, não tem paralelo no mundo civilizado? Por que só o futebol? Por que os dois canais não transmitem nos seus horários nobres, ao mesmo tempo, por exemplo, o mesmo filme?

Continuo pensando no hipotético estrangeiro que, talvez sozinho num quarto de hotel, resolvesse assistir uma partida do decantado futebol brasileiro. No início, pouco familiarizado com as equipes, certamente pensaria estar vendo dois jogos diferentes. Rapidamente, porém, verificaria estar diante de um estranho fenômeno que ele, aterrorizado, poderia tomar por uma alucinação ou, pior ainda, prenúncio de um AVC.

Mas para nós tudo é perfeitamente normal. Outra noite, contudo, com enorme surpresa verifiquei que os dois canais transmitiam partidas diferentes. Por uma noite, quase feliz, voltei a ter esperanças na vida e no País. Mas foi apenas uma noite, uma curta e solitária noite.

Pergunto: não seria possível que multidões que, por acaso, não torcem pelo time escolhido pela transmissão, possam ver sua própria equipe? Ou pelo menos não ver aquele obrigatório jogo?

Resta a TV fechada, a paga. Aí também há coisas que me confundem. Realmente a TV paga apresenta mais variedades de jogos. E também, o que me agrada, videotapes. Esses tapes, no entanto, é que às vezes são o problema. É que me interesso pelos campeonatos da minha região, como de resto deve acontecer com todos os habitantes do Brasil. Me interesso pelos times de São Paulo, talvez até por preguiça. Dessa maneira Flamengo x Resende não me atrai. Por que sou obrigado a, nesta altura da minha vida, travar conhecimento com o Resende?

Olhos incrédulos. Por que a TV por assinatura insiste em me arrastar a novas e estranhas experiências? Uma dessas noites fui apresentado a um jogo que me fez sentir saudade do simpático Resende. Diante de meus olhos incrédulos começou uma partida, ao vivo, creio, entre Godoy Cruz e LDU. Sim, GODOY CRUZ! Não é um cientista, um padre, um negociante, é um time de futebol de algum lugar da América Latina. Mudei logo de canal. Por preconceito. Sou preconceituoso, aceito. E essa condição me autoriza a ter certeza de que um jogo entre o Godoy Cruz e LDU será ruim. Por que não Bangu X Lusa, que pelo menos são velhos conhecidos e povoaram minha infância?

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