Arquivo pessoal
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Verônica Hipólito se descobre 'comentarista' na Paralimpíada: 'É como se estivesse em Tóquio'

Por causa de problema de saúde, atleta fica sem índice, mas trabalho na TV tem ajudado a dar a volta por cima de olho nos Jogos de Paris, em 2024

João Prata e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 12h00

Dois medalhistas paralímpicos brasileiros estão roubando a cena nas transmissões do SportTV dos Jogos de Tóquio: Verônica Hipólito, prata e bronze na Rio-2016 no atletismo, e Clodoaldo Silva, dono de 14 pódios paralímpicos na natação. Com um jeito descontraído, eles contam bastidores do esporte, relembram histórias curiosas e fazem boas parcerias com os narradores.

Com muitas medalhas brasileiras e recordes mundiais e paralímpicos sendo quebrados, o atletismo está sendo um motivo de alegria para Verônica, que não conseguiu índice para Tóquio após ter um novo problema de saúde. "Sabia que ia ficar fora dos Jogos quando apareceu um novo tumor na minha cabeça, mais ou menos em março. Devo marcar a cirurgia em breve. Meus treinos foram afetados, porque tive de abrir mão de remédio de reposição hormonal. Fiquei mais cansada, tive mais lesões. Foi bem chato", conta.

Mas em um momento de dificuldade e com dúvidas sobre sua carreira, Verônica recebeu a ligação da TV Globo com um convite para ser comentarista nos Jogos Paralímpicos. "Voltei a ter vontade de treinar e venho me divertindo muito. Todos que estão ao meu lado, todos mesmo, a maquiagem, figurino, motoristas, apresentadores, comentaristas, todos, estão cuidando de mim. Quero voltar a treinar, mas não gostaria que essa experiência de ser comentarista acabasse. Está sendo muito especial. Em um momento de dor muito forte, foi como se pegassem na minha mão e dissessem: 'vem, você vai estar na Paralimpíada, de outro jeito, mas vai estar'", disse.

Justamente por ser do meio esportivo, ela e Clodoaldo estão ajudando a tornar as transmissões mais atrativas para os espectadores. A emissora vem transmitindo ao vivo em canais no SporTV e eventualmente na programação da TV Globo, além de boletins diários. Como foi na Olimpíada, o fuso horário é um fator que atrapalha, pois grande parte da programação ocorre do final da noite até o início da manhã no Brasil. Mas o bom desempenho da delegação nacional tem despertado o interesse dos torcedores.

Everaldo Marques, que narrou nesta quinta-feira a semifinal do futebol de 5, quando o Brasil ganhou de Marrocos por 1 a 0 e se classificou para a decisão, aponta que ao longo dos anos a cobertura paralímpica sempre ressaltou a história da superação e que agora isso mudou. "Acho que esse discurso está batido. A gente precisa focar não na deficiência e sim, na eficiência. São alguns dos maiores atletas do mundo e precisamos exaltar suas performances. É um foco diferente de olhar para o esporte paralímpico", diz, reforçando que não se pode "ter receio de explicar as coisas, ser didático nas transmissões, para que as pessoas entendam".

Outro narrador do grupo, que vem fazendo as transmissões no SporTV, ressalta a parceria com a dupla Verônica e Clodoaldo. "São parcerias muito fáceis. Os dois são pessoas incríveis, além dos grandes atletas que foram. Tenho a sorte de conhecer a Verônica desde os tempos de escola, então temos uma liberdade, uma amizade que levamos e transparece no ar. É demais ver a Verônica brilhando e encantando o Brasil. O Clodoaldo é outra figuraça. Tem um coração enorme e é extremamente generoso. O tom que passamos tem fluído bem entre conteúdo, informação e brincadeira. Essa mistura é incrível e fico feliz que muitas pessoas estão acompanhando, aprendendo, curtindo e se divertindo", afirma Sérgio Arenillas.

Essa forma descontraída de fazer a transmissão cativou Verônica desde o início. "Os primeiros dias como comentaristas foram muito engraçados porque tinha dificuldade em tudo. Entender que tinha pausa para lanche, esquecia de ligar o microfone, de entender o que era on e off. Tive de aprender a acessar o sistema dos resultados, ter o timing com o narrador, com as propagandas. Foi tudo muito gostoso, mas foi uma correria maluca", revela.

A experiência como comentarista despertou em Verônica o desejo de cursar uma faculdade de jornalismo no futuro. Mas antes ainda quer brilhar novamente nos Jogos Paralímpicos, quem sabe em Paris, em 2024. "Antes, sentia dor muito grande de estar fora da Paralimpíada. Agora tenho um orgulho enorme porque eu sinto que estou lá, numa experiência completamente diferente para mim, uma experiência linda, que vou agradecer pelo resto da minha vida. Espero um dia poder voltar a comentar porque vi que meu coração também está na comunicação. Que bizarro que isso se confirmou agora."

DEPOIMENTO DE VERÔNICA HIPÓLITO

Vi a corrida contra o tempo de todo ciclo, todo trabalho derretendo pelas minhas mãos. Ficava desesperada. Quando fui para a competição e não fiz o índice fiquei triste pelos tempos que marquei. Sabia que estava fazendo tempos bem melhores. Achei que tinha acabado para mim. Chorei, foi uma dor que nunca tive antes. Conversei com os treinadores. Eles pediram para que eu me levantasse, porque precisava continuar. Me falaram que teria Mundial em breve e um ciclo mais curto para os Jogos de Paris. 

Os Jogos agora foram ainda mais especiais porque estive presente em cada detalhe deste ciclo, em cada lição, em cada rasteira da vida desses atletas, estava junto, tendo medo junto. Vê-los conquistando as medalhas não têm nada que pague. Me sinto parte desses Jogos. Nos comentários, vou com a cadeira lá longe para torcer, engulo o choro e o grito para não vazar. Sou mais torcedora do que comentarista. 

Queria aprender logo para fazer bons comentários. Estava no atletismo, mas estava aprendendo sobre natação com o Clodoaldo, sobre o goalball com a Carla... Disse que estava no atletismo, mas para o que precisasse estava aqui. Admito que só na metade dos Jogos é que entendi mesmo. Vou te falar, que vida intensa, que trabalho intenso. 

Sou mais torcedora do que comentarista. O Yeltsin, naquela medalha nos 5.000m, logo no começo, não conseguia parar de torcer. Interrompia o (Márcio) Meneghini para gritar, torcer. Foi engraçado. O japonês parecia que ia passar, mas depois teve aquela reação do Yeltsin. Foi emocionante.

Mas tem outra coisa importante que gosto de destacar. Pouquíssimos atletas vão conquistar medalhas, pouquíssimos vão conquistar recordes mundiais. As novas gerações vão chegar. Temos tantas histórias lindas de atletas que não venceram, mas que tem histórias sensacionais. O (Antonio) Tenório, o Fabrício e o Jackson, a Vanessa Cristina... Tantas pessoas incríveis que só quero bater palma. Nesse último dia não vou me aguentar, mas vou ter que falar: vocês são foda. Claro, não vou falar isso ao vivo, mas dá vontade.

A campanha está sendo incrível. O primeiro ponto que anima muito é a quantidade total de medalhas, a quantidade de ouros, e o Brasil sempre entre os dez primeiros. Acho que vai dar para terminar entre a quinta e a sexta colocação. Me anima muito a quantidade de finais que estamos tendo. Cabe colocar também como os veteranos continuam lá e continuam no alto rendimento. Como os novos, a garotada está encarando de frente, batendo recordista mundial... Orgulho que não cabe dentro de mim. Muitos dos meus amigos estão lá.

Antes eram poucos os que entendiam o que era o capacitismo. Poucos que entendiam sobre a classe e sabiam falar da performance. Desta fez vimos uma força tarefa para fazer a Paralimpíada do altíssimo rendimento. Quero muito estar em Paris ganhando medalha. Quero continuar com essa galera. É tão intensa a comunicação como são os treinos. Cansa muito, mas é gostoso. Pessoal gente boníssima. Vou terminar economia e já to pensando entrar em jornalismo.

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