Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Verônica supera AVC, um tumor no cérebro e 200 no intestino para brilhar

Corredora brasileira paralímpica da classe T38 sonha em disputar os Jogos Paralímpicos de Tóquio

Luis Filipe Santos, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2018 | 05h02

Três cirurgias para retirar um tumor do cérebro, uma para retirar 200 tumores do intestino e um AVC (acidente vascular cerebral) sem aviso prévio. Tudo isso já aconteceu com Verônica Hipólito, corredora brasileira paralímpica da classe T38 – para atletas com paralisia cerebral leve – e nada a impediu de se tornar campeã mundial, conquistar medalhas na Rio-2016 e projetar mais vitórias e pódios.

Verônica tem 22 anos e começou no esporte desde cedo. Quando criança, praticava judô, até ter de passar pela primeira cirurgia para retirar um tumor no cérebro, aos 13 anos de idade. Depois disso, ela não pôde mais voltar a praticar a luta e foi para o atletismo, a princípio, a contragosto. “Meus pais me inscreveram em um festival que ia acontecer em um domingo, às 8 horas da manhã. É claro que eu não queria ir. Mas fui, corri, e mesmo sem ganhar, me apaixonei por aquilo”, relata.

A jovem sofreu outro baque em 2011, quando teve um AVC. Verônica teve a desconfiança dos médicos de que poderia continuar praticando esporte, mas, incentivada novamente pelos pais, usou o atletismo como uma forma de se recuperar. Pouco tempo depois, começou a competir entre os atletas paralímpicos. “Eu não sabia que poderia estar no paradesporto até que um treinador chegou e me deu essa dica. E já na segunda prova, bati os recordes brasileiros e sul-americanos das provas que corri”, conta Verônica.

Ela corre os 100m, 200m e 400m rasos e também participa do salto em distância. Foi nos 200 que, em 2013, se tornou a mais jovem campeã mundial paralímpica da história, aos 17 anos, além de ser prata nos 100m. Era apenas a quarta competição dela no paradesporto.

Em 2015, Verônica se preparava para o Parapan quando seus exames detectaram uma anemia. Ao fazer mais avaliações para entender aquilo, descobriu que tinha Polipose Adenomatosa Familiar, doença que causou o surgimento de 200 tumores em seu intestino grosso.

Sem revelar a situação publicamente, ela foi e competiu no Parapan de Toronto, no Canadá. “Não queria que as pessoas me vissem como a coitadinha do time brasileiro, a menina que ia operar. Queria que me vissem pelas medalhas e conquistas”. E, de fato, Verônica Hipólito conquistou três medalhas de ouro, nas provas de corrida, e uma de prata, no salto em distância. Quando voltou, comemorou em um churrasco com a família e, dois dias depois, passou pela cirurgia, retirando 90% do intestino grosso.

A partir de então, Verônica teve de começar a conhecer o próprio corpo novamente, entender os limites físicos para poder superá-los. Ficou fora do Mundial daquele ano, mas, em 2016, ainda em recuperação, competiu na Paralimpíada do Rio. Conquistou uma prata nos 100m e um bronze nos 400m.

“Os 400 eu corri com uma pequena lesão, que aconteceu enquanto disputava o salto em distância. Ainda assim, quebrei o recorde mundial anterior da prova, mas as duas primeiras colocadas também quebraram. Em qualquer outra corrida, eu teria sido ouro, mas essa teve um ritmo muito forte. Nos 100m, eu fiz o melhor tempo da minha vida, mas talvez pudesse ir melhor se não fosse o nervosismo e a ansiedade”, relembra a menina.

O novo ciclo olímpico começou com mais cirurgias. Verônica precisou operar para retirar outro tumor no cérebro em 2017 e 2018 – atualmente, ela se recupera da última intervenção médica. “Estou treinando há um mês e meio, ainda leve, fazendo mais fisioterapia e pedalando alguns tiros na bike. As metas são estar correndo até o fim do ano e “medalhar” no Parapan de 2019, mas tenho de seguir o planejamento dos médicos e voltar a conhecer meu corpo”, admite.

Sobre a Paralimpíada de Tóquio-2020, a voz não titubeia. “Tóquio eu quero, Tóquio eu vou, e vou ser campeã paralímpica, porque vou dar até meu último fio de cabelo para ser campeã”, diz, com confiança inabalável.

 

 

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