Imagem Reginaldo Leme
Colunista
Reginaldo Leme
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Versão melhor que o fato

O automobilismo brasileiro perdeu esta semana um personagem importante. O jornalista Marcus Zamponi relatou momentos importantes que ele viveu dentro e fora do País, com a vantagem de, além de relatar, criar as suas próprias versões sem qualquer compromisso com a realidade. Sempre contadas com tanta convicção que a história deixava no ar a dúvida: tinha mesmo existido aquilo? Sorte de quem convivia com ele mais tempo e tinha a chance de ouvir a mesma história com diferentes versões.

REGINALDO LEME, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h10

Só assim era possível respirar aliviado, com a certeza de que nada daquilo tinha ocorrido do jeito que ele contava. Um romancista da melhor qualidade, gênio da criatividade. Usada com o objetivo de desviar o rumo das coisas para que ficassem mais interessantes do que eram na realidade. Nisso, sempre sobrava para alguém.

Conheci o Zampa em maio de 1973 em Londres. Ele acompanhava os pilotos brasileiros que iniciavam carreira na F-3 inglesa e, por causa disso, seria meu companheiro até o final daquele ano. Isso acabou se estendendo por muitos anos mais. Morávamos todos em Earls Court, perto uns dos outros. Além do Zampa, tinha o Leonel Friedrich e foram chegando outros pilotos, entre os quais Teleco Siqueira Veiga, Julio Caio, os irmãos Marcos e Luiz Moraes, Arion Cornelsen, Alex Dias Ribeiro, Ingo Hoffmann. O Zampa dividia o apartamento com Chatozinho, um piloto carioca, e o Mica, um dos sujeitos mais malucos da face da Terra. Aliás, como maluco atrai maluco, foi morar com eles também um inglês (pena não me lembrar o nome dele) que adorava filmes de faroeste. Só que ele assistia aos filmes vestido de cowboy, inclusive revólveres de plástico na cintura. E atirava em todos, bandidos e mocinhos.

O local dessas cenas era uma travessa da Earls Court Road, chamada Bramham Gardens. Guardo tantas saudades desse tempo que semanas atrás fui lá na frente do prédio com minha filha Camila, hoje morando em Londres. Fiquei uns bons minutos ali parado, olhando a rua e o prédio. Lá tivemos noites de festa. O vinho era barato. Para comer, qualquer prato de massa resolvia. A carne era muito cara. Exceto quando o Zampa resolvia convocar todo mundo para um jantar especial que acontecia de vez em quando. Ele trabalhava em uma hamburgueria chamada Hungred Years. De vez em quando, na hora de ir embora, ele pegava uns hambúrgueres crus e enfiava na cueca. Era noite de banquete na Bramham Gardens.

Com o Zampa aprendi a viver no automobilismo inglês. Nos fins de semana a gente ia para as pistas acompanhar as corridas dos brasileiros e ele acabava botando pra dentro todos os amigos. Quando o Zampa voltou para o Brasil, escolheu São Paulo para morar e acabou se tornando o carioca mais paulista que conheci, sem jamais perder o sotaque de quem nasceu em Copacabana. Não tenho dúvidas de que o meu irmão Dinho foi uma das pessoas de quem ele mais gostou. Por isso mesmo, era um dos personagens preferidos em suas histórias. Mas todos com quem ele trabalhou acabaram virando personagem. Tinha um rapaz, o Rubinho, que nos tirava das enrascadas da informática. Um dia o Zampa pediu para o Rubinho ir até a casa dele resolver um problema com o computador. Era coisa simples, e em 10 minutos estava tudo solucionado. Na hora de acertar a conta, o Rubinho deu o preço explicando que costumava cobrar por hora. Chances como esta o Zampa não perdia: "Então, ainda restam 50 minutos, você pode limpar a piscina e aparar a grama do jardim''.

Jamais saberemos se o Zampa foi feliz. Ele era capaz de criar histórias que mascarassem qualquer infelicidade. De qualquer forma soube usar plenamente o seu talento principalmente para viver. Bonachão é o termo que o define. A descrição fiel da figura é a que fez o amigo Marcio Fonseca, que conviveu muito com ele: "Exagerado em tudo, no peso do corpo, nas drogas, nas paixões''. Assim viveu, de forma bem vivida, Marcus Cícero Zamponi. Ele parte e deixa surpresos jornalistas de gerações mais novas, como fica claro na observação de Alexander Grunwald: "O cara morre e dezenas de pessoas desandam a contar histórias hilariantes sobre ele. Isso não é para qualquer um''.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.