Veto ao Morumbi, a causa da briga de Lula com a CBF

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considerou errada a decisão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de excluir o Morumbi da Copa de 2014. Ele acha que a entidade deve rever sua posição. Para o presidente, nada justifica a construção de um novo estádio de futebol em São Paulo, feito exclusivamente para a Copa, como quer a CBF.

João Domingos/ Brasília, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2010 | 00h00

Se esse estádio for feito, estaremos construindo um elefante branco, tem dito o presidente nos encontros com seus assessores, informou um deles, testemunha da irritação de Lula com a CBF. O presidente entende que, ao condenar o Morumbi, a CBF criou tanta confusão que não é possível nem saber hoje se São Paulo vai organizar o jogo de abertura da Copa do Mundo. E Lula quer que essa partida ocorra na capital paulista.

Para o presidente, ao vetar o Morumbi e embaralhar o começo das obras, a CBF está fazendo discurso para entregar a conta ao governo. Ou, então, dividir com ele as responsabilidades, sob a alegação de que falta infraestrutura para a mobilidade urbana (metrô, trens, ônibus, rodovias). Na visão do presidente, o transporte para o Morumbi pode ser resolvido tanto por ônibus quanto por metrô, cuja estação da Linha 4 do Metrô, que ficará próxima ao estádio, terá capacidade para atender a 70 mil passageiros por dia.

Na segunda-feira, na reunião da coordenação política, o presidente tratou dos problemas e das críticas à organização da Copa de 2014 com os principais assessores e ministros. Disse que não engolia a solução que vem sendo divulgada pela CBF, de construção de um novo estádio.

Lula chegou a admitir que a Fifa tem razão quando critica a demora no início das obras, pois já deveriam ter começado, mas atribuiu os atrasos e atropelos em parte à CBF.

Em público, porém, o discurso de Lula é outro. Durante o lançamento do edital para a construção do trem-bala, ontem, rebateu todos os que têm feito críticas quanto à demora no início da reforma ou construção de estádios para a Copa, sob o argumento de que o Brasil tem sol suficiente para fazer vários turnos de trabalho e entregar tudo dentro do prazo.

Na mesma reunião de segunda-feira, Lula e equipe fizeram avaliação das repercussões da fala do presidente na África, quando disse que voltaria "a nado para o Brasil" caso o País não conseguisse terminar a tempo as obras necessárias. De acordo com os presentes, sua fala foi considerada positiva. O presidente aproveitou a viagem à África para dar ainda uma estocada na CBF, propondo que haja troca de comando de oito em oito anos.

A decisão de vetar o Morumbi para 2014 foi anunciada pela CBF em 16 de junho, um dia depois da estreia do Brasil na Copa da África, e antecipada pelo Estado em abril. A CBF alegou que o São Paulo, proprietário do estádio, não adotou a proposta completa de reforma, a última que havia apresentado, ao custo de R$ 630 milhões. O Tricolor voltou atrás e exibiu um plano mais simples, com custo total de R$ 265.423.497. Diante dessa decisão do clube, o Comitê Organizador Local (COL), presidido por Ricardo Teixeira, decidiu nem analisar o novo projeto. Optou por desclassificar o Morumbi. Desde aquele dia, Lula tem mostrado irritação com a decisão.

Na segunda-feira, a Fifa advertiu que falta tudo para o Brasil ter condições de ser a sede do Mundial de 2014. "Precisamos construir estádios, estradas, o sistema de telecomunicações, aeroportos e ver se há mesmo capacidade suficiente em hotéis", disse o secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke.

Rusgas recentes

Defesa pública

Desde a definição das 12 cidades-sede do Mundial do Brasil, em 31 de maio de 2009, Lula defendeu publicamente a escolha do Estádio do Morumbi como local da abertura da Copa do Mundo de 2014.

Decisão contrária

Em 16 de junho, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, anunciou a exclusão do Morumbi da Copa de 2014, em entrevista concedida na África do Sul.

Provocação?

Em visita à Tanzânia, em 7 de julho, Lula defendeu a renovação na presidência da CBF a cada oito anos.

Resposta

No dia seguinte, em evento em Johannesburgo, Teixeira rebateu o presidente. "Eu respeito o que o Lula acha sobre as eleições, apesar de discordar."

Tréplica

Em 9 de julho, ainda na África do Sul, Teixeira criticou a estrutura dos aeroportos do Brasil.

No mesmo dia, Lula considerou o comentário descabido.

Aviso

Ontem, Lula se irritou ao falar de cobranças da Fifa para o Mundial. "Como se fôssemos um bando de idiotas", protestou. A CBF não pretende seguir com esse bate-boca e vai deixar que a Fifa tome as providências.

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