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Antero Greco
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Vexame atrai vexame

Não é por acaso que o São Paulo neste momento flerta com a zona de rebaixamento. E leva um beliscão bem dado quem disser que a má fase se deve aos desejos insondáveis dos deuses do futebol, imagem poética que teve seu valor ao ser usada pela primeira vez quando Machado de Assis vestia calças curtas. Papo mais furado, esse, de transferir para entidades etéreas, superiores e inalcançáveis - que, no caso, nem existem - mazelas que são culpa apenas de gente de carne, osso e de cabeça de vento.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h07

O São Paulo está num lamaçal desgramado por causa do balaio de gatos em que se transformou. O clube até bem pouco tempo sinônimo de eficiência e grandeza agora dá vexames como qualquer agremiação mambembe. Pisa na bola nos bastidores e dentro de campo. O resultado é o que se vê: discussões em público entre dirigentes e jogadores e a equipe a despencar na tabela, após sete derrotas consecutivas, um vexame inédito e histórico.

O caminho tricolor está esburacado e quem o comanda perdeu o rumo. Parece ladainha tocar no assunto novamente, tantas vezes escrevi a respeito disso nas últimas semanas. Mas não dá para fingir que não acontece nada de anormal, lá pelas bandas do Morumbi, só porque os dirigentes escandem bem as sílabas, não engolem os "esses" nos plurais e costumam apresentar-se bem vestidos e barbeados. Cabelos desgrenhados, só os do presidente.

E é pelo mandachuva que se inicia a via crúcis do time. Juvenal Juvêncio cumpriu ciclo no clube, teve períodos importantes, amealhou simpatias e discordâncias. Mas errou a mão ao empenhar-se, com os que o apoiam, para obter o terceiro mandato. Quebrou verniz de rodízio de poder no São Paulo e, dali em diante, não acertou uma. Cada aparição recente aumenta a sensação de que ocorreu a virada de fio, sem que tenha notado. Nem as frases de efeito, antes recebidas como sinal de inteligência e fina ironia, funcionam mais.

Não têm eco palavras vazias e decisões que levam à instabilidade, como as constantes trocas de treinadores. Elas só bagunçam mais o coreto e passam o recado, para o elenco, de que a casa pode cair. Ou não é significativo Rogério Ceni vir a público e afirmar (com razão, diga-se) que o São Paulo parou no tempo? E não ficou mais feio o diretor de futebol rebater as críticas com o argumento de que o goleiro está machucado e em fim de carreira?

A avalanche despenca em cima do grupo e, por extensão, dos torcedores. Quem se aventurou a ir ao estádio, no começo da noite de ontem, viu uma equipe acuada, medrosa, sem iniciativa, frágil, pronta a desmoronar no primeiro lance mais agudo. Dito e feito. O Cruzeiro percebeu, com poucos toques na bola, que tinha um adversário talhado a ser derrubado sem muito esforço. Não precisou nem forçar a barra.

Não teve necessidade sequer de recorrer a jogadas extraordinárias ou bem elaboradas para tirar lasquinha de rival que desce a ladeira. Bastou Luan para liquidar a tarefa. Luan, aquele mesmo escorraçado pelo Palmeiras porque acertava um passe em 20 tentativas, fez os três gols. E gols bonitos. O que é o destino...

Paulo Autuori à beira do gramado fez caretas, mexeu na escalação (tirou Denilson, Luis Fabiano e Osvaldo como poderia tirar qualquer um dos outros) o que não alterou uma vírgula. O São Paulo resistiu um pouco, no primeiro tempo. Depois, expôs debilidade física, psicológica e estratégica. Autuori agora deve ter noção da encrenca em que se meteu ao sair do Vasco. O estrago vem lá de trás e, se ele não conseguir a reação em brevíssimo tempo, não surpreenderá se virar mais um na estatística de professores demitidos por um clube atipicamente surtado.

Palmeiras engrena. Devagar, sem alarde, sem dar espetáculo e à sombra dos rivais da elite, o Palmeiras coleciona vitórias, se ajeita, sobe e ontem foi dormir líder da Série B. Faz o que se espera de um time com vasta tradição e mostra força, como nos 3 a 2 sobre o Figueirense, em SC.

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