Vícios táticos

Falar em tática, para muitos, é o suprassumo da chatice no futebol. Conheço torcedores que até preferem discutir polêmicas de arbitragem ou a política do Clube dos 13 a gastar energia com posicionamentos, "duas linhas de quatro" e tal. Muitos comentaristas também não gostam, dizendo que futebol não é ciência, não tem lógica, é paixão, etc. São os mesmos que depois reclamam da desorganização dos clubes, do êxodo de jogadores e da crueldade da torcida. Do outro lado, há muitos que tratam esquemas e estatísticas como dogmas e sempre põem a culpa no treinador, cuja função parecem querer ocupar. E assim tornam ainda mais tedioso um assunto que nem sempre interessa tanto. Afinal, a tática só faz sentido se servir ao elenco, e não o contrário.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

Veja o Barcelona. Faço parte dos incontáveis admiradores do estilo de jogo do time de Pep Guardiola, que consiste basicamente em reter a bola no campo do adversário e marcar na mesma região quando a perde. Basicamente? Nada disso. Você precisa ter jogadores com domínio de bola e visão de jogo extremamente apurados, como Xavi e Iniesta, laterais que sabem driblar, como Daniel Alves, e um ataque que se movimenta o tempo todo sem ficar bagunçado, protagonizado por Messi, que gruda a bola ao pé em velocidade. Precisa ter um time que não se afoba e resolve problemas em espaços exíguos, inclusive zagueiros e volantes, e onde cada um sempre se apresenta como opção ao outro. Não existe um centroavante fixo, mas Villa é homem de área, entrando na diagonal às costas da zaga, e Messi e Pedro também apontam para o gol insistentemente. Messi, por sinal, nunca fez tantos gols porque nunca teve essa liberdade de avanço.

Ainda assim, é um esquema que corre riscos, como ficou claro no jogo da semana passada contra o Arsenal, que aproveitou em alguns lances de muita técnica os espaços deixados pela subida dos laterais. Mais importante: é um esquema que é difícil de ser imitado, pois raros clubes têm um elenco titular dessa qualidade e homogeneidade. Mas isso não justifica o modelo mais adotado no mundo todo hoje em dia, que se diz prudente e não passa de covarde, obrigando os atacantes de lado a recuar bastante para ajudar na marcação e, por princípio, abdicando de 50% da posse de bola. O sucesso do Barcelona não pode ser replicado, porém deveria inspirar times bons a ter mais iniciativa. Não há nada mais triste que jogadores de talento amarrados longe do gol.

No Brasil os exemplos são muitos. É fato que o nível técnico anda baixo, mas mesmo os melhores adotaram o padrão "só um à frente da linha da bola". Alguns tentam imitar o São Paulo de 2006-2008 e colocar três zagueiros, mas esquecem que não têm nem os três bons zagueiros nem os laterais que saibam apoiar (os alas) e, como se não bastasse, ainda usam dois volantes de marcação. Assim, quando têm a bola nos pés e os espaços para avançar, só lhes restam a correria e os chutões. Por preguiça, os técnicos não treinam domínio e aproximação. Jogadas não são construídas; é difícil ver uma tabela calibrada ou um lançamento preciso; há ampla carência de meias armadores. Logo, os erros são mais frequentes e a "solução" é cometer faltas assim que se perde a bola.

É hora de romper com esse círculo vicioso. No Campeonato Paulista, times como o Santos e o São Paulo têm jogado abaixo do que podem por causa dessa covardia. No Santos, jogadores com tino de gol como Maikon Leite e Zé Eduardo ficam no banco e Elano, de rara lucidez, fica muito recuado; Neymar, isolado lá na frente, não pode fazer um milagre por jogo. No São Paulo, finalmente o ataque de velocistas - Dagoberto, Lucas e Fernandinho - tem sido escalado, com proteção de outro jovem promissor, Casemiro, e volantes mais experientes. Contra adversários mais organizados, no entanto, será preciso evitar a afobação, o descontrole, para desacelerar e/ou variar alternativas. Palmeiras, Mirassol e Corinthians estão acima na tabela, mas Santos e São Paulo têm tudo para subir. Desde que levem a tática a sério - não muito.

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