Vida difícil

Não sei do que um treinador de futebol precisa para ser bem-sucedido. É um mistério. Às vezes penso que o principal é a malandragem. Saber quando ir em frente e quando recuar. Saber quem atacar e quem não pode atacar. Fazer os atletas entenderem que ele pode ajudá-los em suas carreiras ou destruí-los, por meio de alianças, ligações, etc. Também saber ganhar os atletas na manha e na conversa. Enfim, ser paizão, falar a linguagem dos boleiros e criar, através de auxiliares, assessores de imprensa e agentes de marketing, uma aura de proteção em torno de si mesmo.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h03

Sorte também é essencial. Há vários treinadores que estavam na hora certa no lugar certo e ganharam algum título importante, tão importante naquele preciso momento que os absolve de qualquer erro ou incompetência posteriores. Vários treinadores ganharam títulos em disputas de pênaltis. Isso não os desmerece, mas que sorte ajuda, é inegável.

Mais ou menos assim são os de sucesso, que todos conhecemos. Existem outros com características diferentes e de caminho mais árduo. Telê Santana, por exemplo. Ou, mais atual, Dorival Júnior. São pessoas mais duras, que não se curvam facilmente e por isso têm vida difícil. As circunstâncias dentro das quais Dorival Júnior saiu do Santos falam por si. E o curioso é que quando se fala que o Santos perdeu parte do encanto, que não joga mais como tempos atrás, ninguém se lembra que o melhor do Santos foi quando seu treinador era Dorival Júnior. E, antes que eu me esqueça, o único grande jogador que saiu do Santos desde os tempos de Dorival Júnior foi o Robinho.

Por que o nome do ex-treinador, então, nunca é lembrado quando se fala naquele time que encantou o País? Talvez porque não tenha se curvado a ninguém e nem tenha negociado sua autoridade.

Se uns têm caminho mais fácil e outros mais difíceis, há uma espécie que virtualmente não tem caminho algum. São os que não são malandros nem rígidos, mas apenas civilizados. Acreditam em quem os contrata e acreditam no diálogo civilizado com os jogadores. Esses são os que realmente sofrem. O recente episódio da demissão de Caio Júnior, pelo Grêmio, tratado esta semana pelo Antero Greco com a perspicácia habitual, é um exemplo disso. Mas não é só ele. Falcão, o grande craque, é outro que insiste em ser civilizado, em falar de modo racional, a levar as coisas sempre como se tratasse com gente que pensa. Paga por isso e vaga daqui pra lá há muitos anos, frequentemente demitido. Agora está no Bahia, veremos.

Podia citar o Cuca, outra vítima da boa educação, ou o atual treinador do Botafogo, Oswaldo de Oliveira. Por ser polido, falar clara e corretamente e não se esconder, foi parar no Japão, de onde só voltou agora. É incrível, mas dirigentes, torcedores e também jogadores parecem abominar quem os trata como verdadeiros seres humanos. Pobre futebol.

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