Vida que segue

Nas quebradas dos anos 1960, a extinta Excelsior colocou no ar 596 capítulos de Redenção, a mais longa novela da tevê brasileira. Enrolação tremenda, em branco e preto, mas que ainda assim prendia a atenção do público por causa do elenco, encabeçado pelo jovem galã Francisco Cuoco, que fazia as mocinhas suspirarem por aí. A Avenida Brasil de hoje é café pequeno perto daquele folhetim.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h09

A trama em torno do destino profissional de Ganso ficou tão intrincada que merecia ser assinada por Dias Gomes, Janete Clair, Benedito Ruy Barbosa e outros craques do gênero. Antes do desfecho ocorrido na tarde de ontem, não faltaram vilões, traições, cenas de desprezo, recuos, reviravoltas enganosas, acusações de chantagem. Um show.

O encerramento trará felicidade para alguns e sensação desconfortável para outros. Ganso chega como estrela na nova casa, mas sai como ingrato do clube que o projetou. Parece a ficção que você consome na telinha. E a demora no desenlace foi parecida com a de Irmãos Coragem, Beto Rockefeller e tantos clássicos. Pois não durou só quatro ou cinco semanas, como podem dar a entender os últimos acontecimentos. A embromação atual, que desembocou na transferência do rapaz da Vila para o Morumbi, foi apenas a reta final da intriga.

A saída de Ganso começou a desenhar-se praticamente com a subida ao poder de Luis Alvaro Oliveira. Desde a primeira hora, a administração do Santos trombou com a DIS, a parceira que teve trânsito tranquilo nos tempos de Marcelo Teixeira. O clube e o grupo de investidores mostraram-se os dentes em diversas pendências, Ganso a maior delas. O moço era uma das pérolas para os dois lados. E pedra preciosa dividida, nessa teia em que se transformaram os direitos econômicos dos boleiros.

Note como foram raros os momentos de serenidade na relação de Ganso, seus representantes e Santos neste tempo todo. Era um tal de pedido de aumento pra cá, promessa de plano de carreira pra lá, propostas estrangeiras acolá (e nunca, de fato, tornadas oficiais e avaliadas). Nisso, a vida seguiu, o Santos ganhou alguns títulos - a Libertadores foi o principal. Ganso valorizou-se com as conquistas, mas se machucou muito e, mais recentemente desgastou-se demais, caiu em desgraça com o torcedor alvinegro. Perdeu espaço na seleção.

Tudo caminhava para a ruptura, estava mais do que na cara. E por erros de todas as partes, incluído aí o camisa 10, por coincidência afastado do Santos por contusão sentida ao sair de campo sob vaias e moedas. Logo estará curado.

Mais do que a carreira de Ganso, dinheiro esteve em jogo. Os investidores queriam lucro, o moço sonhava com salário maior (que o Santos jura lhe foi oferecido várias vezes) e o pessoal da Vila lutou para não perdê-lo por um punhado de reais. O São Paulo entrou no meio da celeuma desde que os cofres se encheram com a grana do PSG pelo passe de Lucas, que fica no clube até o fim do ano, num raro gesto de desprendimento no mundo dos negócios esportivos.

Que cada um siga sua vida e reencontre a paz. O Santos tem uma baixa importante - apesar de Ganso havia algum tempo mostrasse uma bola bem murcha por lá -, mas tem dinheiro para investir. A DIS se acalma um tiquinho, embora continue à procura de voos mais altos para seu pupilo. Ney Franco que trate de achar lugar para o ídolo, ao lado de Lucas, Jadson, Luís Fabiano. E, por fim, que o fantasma das contusões desencarne do Ganso, para que não fiquem dúvidas sobre sua integridade física.

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