Daniel Vorley/ECP
Daniel Vorley/ECP

Vigilância e cuidado redobrado ditam ritmo de Ana Cláudia Lemos nas pistas de atletismo

No Troféu Brasil, velocista volta às grandes competições após lesão e caso de doping

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2017 | 07h01

Recordista brasileira nos 100 m e sul-americana nos 200 m rasos, Ana Cláudia Lemos volta às grandes competições nesta sexta-feira, às 14h30, no Troféu Brasil de Atletismo para deixar as sombras do passado para trás. O primeiro passo é buscar o índice para o Mundial de Londres, em agosto, na prova mais rápida do atletismo (11s26) e ajudar o Pinheiros - sua nova casa - na busca pelo bicampeonato.

Em 2016, a velocista viveu um dos momentos mais conturbados de sua carreira. Em março, seu exame antidoping apontou a presença da substância proibida Oxandrolona e, apesar de ser inocentada após provar que houve contaminação cruzada de um medicamento, teve de cumprir cinco meses de suspensão por negligência.

O episódio deixou Ana Cláudia mais meticulosa em sua rotina. "Sempre fui desconfiada, não pegava alimento de ninguém e água da mão de ninguém. Após o doping, eu pirei. É uma loucura. Meu noivo abre a minha água, já não tomo mais. Pesquiso, pergunto para meu médico mil e uma vezes. Já era neurótica, agora sou mais ainda. Fico com medo. Eu me cuidava tanto e aconteceu, agora me cuido mais", disse.

A vigilância sobre ela também aumentou. A atleta mais rápida do Brasil estreou na temporada em 10 de maio, com o 2º lugar no Circuito Ouro, organizado pela Federação Paulista de Atletismo, mas foi submetida a quatro exames antidoping até agora. "Esse ano, já fiz dois (exames) de sangue, dois de urina e um passaporte biológico. Levando em consideração que vou fazer minha segunda competição, estou sendo bastante testada. Acho até bom para quem quiser ver (que estou limpa)", afirmou.

A velocista teve de aprender a conviver com julgamentos e precisou de tempo para "digerir" as ofensas. O caso de doping, contudo, não foi o único trauma enfrentado por Ana Cláudia no ano passado. O desconforto no joelho direito que a impediu de competir nos Jogos Olímpicos do Rio virou uma grave lesão. 

"Foram cinco meses e meio para recuperar de um edema ósseo, de um desgaste de cartilagem e de um desequilíbrio muscular. Devido a todo o estresse que tive no período do doping, foi mais difícil porque algumas coisas dentro de mim não se resolviam e eu tinha um turbilhão para definir: patrocinadores, clube e treino", explicou. 

Ana Cláudia tinha sido dispensada do BM&F Bovespa (agora chamado B3 Atletismo) com a justificativa de violação do código de conduta, perdeu também o benefício da Bolsa Pódio, do governo federal. Durante o período longe das pistas, contou com apoio da Marinha e da Nike e usou suas próprias economias para pagar o tratamento e manter sua equipe multidisciplinar.

Em busca de ressarcimento, trava uma luta judicial. "Estou com processo contra a farmácia, que corre em sigilo, para reparo financeiro. Foi um gasto grande, tive de vender um apartamento para poder me manter nesse período. Foi um período bem complicado, voltei a treinar no fim de janeiro", disse Ana Cláudia.

Todos os fatores somados levaram-na a buscar ajuda psicológica. "Estava mais brava, irritada e intolerante. O doping para mim foi passageiro, tenho minha consciência limpa e sabia que a verdade ia aparecer. Mas não tinha como lutar contra a lesão, tinha de esperar. Precisei de uma psicóloga para me motivar, para acreditar."

Depois de cerca de um ano sem clube, Ana Cláudia assinou contrato com o Pinheiros e voltou a sonhar. Além de usar a estrutura do clube paulista, continuará frequentando o Núcleo de Alto Rendimento (NAR), de São Paulo, onde se sentiu acolhida no momento de dificuldade.

"Espero começar a correr na casa dos 10 segundos", projetou a atleta, que é dona do recorde brasileiro nos 100 m, com 11s01. Para 2018, a meta é superar o próprio limite nos 200 m (22s48). Com o auxílio do técnico Katsuhico Nakaya, tem um planejamento detalhado até os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, e promete seguir à risca para honrar sua própria história.

 

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