Vingança, pressão e desespero

Boleiros

daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

03 de outubro de 2007 | 00h00

De boas intenções os estádios não estão cheios. Sentimentos fortes e, digamos, agressivos estão em jogo o tempo todo. Saber canalizá-los para a eficiência e a criatividade, na narrativa construída em cada ocasião, é que é o desafio, um desafio marcado por ambigüidades. A vitória antológica da seleção brasileira de futebol feminino sobre a americana, na quinta passada, foi em grande parte motivada pela vontade de romper o tabu e responder às declarações e atitudes do técnico adversário. E não há nada de mau nisso. Mas não tenho dúvida de que, além do desgaste físico, aquela intensidade emocional cobrou fatura na final contra a Alemanha, cuja organização tática e força não se rendem facilmente a ações improvisadas e isoladas.O gostoso de ver futebol feminino, por sinal, é reencontrar o esporte em sua forma mais pura, para o bem e para o mal, e quem sabe repensá-lo um pouco. Existem ainda dois incômodos, digamos assim, na comparação com o futebol dos marmanjos, cada vez mais corrido e combativo. O primeiro é a relativa ingenuidade, visível na precipitação de alguns lances, como chutes de longa distância sem força ou precisão para tanto. Às vezes, a empolgação é o pior inimigo do bom futebol; a jogadora fica animada com o próprio drible ou a situação de gol e acaba desperdiçando o lance por perder o foco. O segundo incômodo é a atuação das goleiras, e não por acaso esse foi um dos principais trunfos da seleção alemã. Ao mesmo tempo, por ter mais espaço e delicadeza, nos sentimos vendo o futebol dos anos 50, tão mais cadenciado e ofensivo...O drible da Marta no quarto gol contra os EUA, por sinal, é um exemplo de conjunção de arte com resultado, não de malabarismo romântico. A meia-lua feita de costas para o marcador não é novidade; Nilmar, por exemplo, é muito bom nisso. Onde Marta inovou foi em dominar a bola no alto e dali mesmo tocá-la para trás, depois saindo em corrida pelo outro lado. E ainda deu mais um drible antes de chutar com a direita, embora canhota, e marcar o gol... Tal combinação de habilidade e velocidade tem valor em qualquer partida, principalmente em meio a zagueiros altos e fortes.Vingança também tem suas serventias no futebol masculino. Boa parte da dedicação do time do São Paulo contra o Boca Juniors, na quarta passada, foi baseada na sede de acabar com a seqüência de vitórias argentinas. O nervosismo atrapalhou um pouco de novo, mas não o suficiente para desestruturar o time. E a entrada de Aloísio foi fundamental porque, afora a força, ele estava ainda alheio ao clima da partida e teve a calma de ganhar no jogo de corpo e finalizar, como Borges no final da partida em Buenos Aires.Já a pressão da torcida do Internacional, no domingo, não foi bem usada pela equipe. Se o time conseguiu anular a saída de bola e o meio-campo do São Paulo, alguns de seus jogadores sentiram o peso, como o zagueiro Índio, expulso por bobagem, e o atacante Fernandão, que mesmo com todo o currículo perdeu três chances claras. Com isso e a derrota do Cruzeiro, o São Paulo abriu doze pontos. Do comprometimento tático obtido por Muricy e da experiência de muitos jogadores nasce a regularidade, que é também emocional, ainda que aconteçam vacilos. Os outros elencos são formados por jogadores ou muito veteranos ou muito imaturos.E quanto ao desespero? Ele se refere, claro, ao estado de espírito do Corinthians. O clube chafurda na própria lama, e a equipe patina em campo como se fosse de várzea. A série B desponta no horizonte. Onde buscar um mínimo de autocontrole para não afundar, não sei. Não é dessas más intenções que o futebol precisa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.