Violência dos sérvios teve motivação política e foi planejada, diz polícia

Ideia dos baderneiros, que acabaram com jogo na Itália, é sujar imagem do país e evitar ingresso na União Europeia

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2010 | 00h00

O futebol é sequestrado por grupos extremistas e neo-fascistas nos Balcãs e usado como arma política. Informações da polícia sérvia e italiana transmitidas ontem à Uefa mostram que os protestos de hooligans da Sérvia em Gênova na terça-feira não ocorreram por acaso. O grupo de extrema-direita teria usado o jogo contra a Itália, válido pelas Eliminatórias da Eurocopa 2012, para manchar a imagem da Sérvia com o objetivo de dificultar a adesão do país à União Europeia.

Ontem, o grupo neo-fascista exigiu que os torcedores responsáveis pelos distúrbios sejam soltos, ameaçando um "banho de sangue" caso o governo opte por processá-los. A partida entre as duas seleções foi suspensa diante da violência e o resultado de 3 a 0 deve ser dado aos italianos. Além disso, a Uefa avalia uma multa pesada aos sérvios. A Uefa abriu investigações sobre o incidente e pode até eliminar a seleção sérvia da Eurocopa.

Mas, em Belgrado, a crise vai bem além do futebol e o próprio governo admite que o país está à beira de um novo conflito social. A Sérvia vive divisão política interna profunda. Grupos de extrema-direita, ainda ligados aos comandantes das guerras da Bósnia e do Kosovo nos anos 90, são contra os tribunais estabelecidos pela ONU para julgar seus líderes. Os partidos moderados apostam na deportação dos criminosos de guerra e de suspeitos como forma de mostrar à Europa que o novo governo está disposto a seguir as regras da comunidade internacional.

A divisão no país, porém, teria chegado ao futebol. "Alguém quer demonstrar que a Sérvia não está nem pronta nem madura para entrar na Europa", afirmou o ministro do Interior do país, Ivica Dacic, à rede TV B92.

Um dos cartazes que traziam os "torcedores" era ainda alerta à UE: "O Kosovo é nosso." Parte da Europa e Estados Unidos reconheceram a independência da região, algo que a Sérvia rejeita. Outro cartaz era mais explícito: "Morte aos albaneses." A violência fez 16 pessoas serem levadas aos hospitais e 17 presos.

A arbitragem tentou levar o jogo adiante, mas com apenas seis minutos depois de a bola rolar, teve de encerrá-lo por falta de segurança. Tomislav Karadzic, presidente da Federação Sérvia de Futebol, também confirmou que a manifestação já estava sendo planejada antes, em Belgrado. Cerca de 3 mil "torcedores" teriam tido suas passagens e custos pagos por grupos políticos para ir até Gênova executar a violência. "Esses garotos eram apenas executores. As ordens vieram de Belgrado," disse. Para ele, está na hora de "o governo agir contra um grupo que está sendo financiado por importantes recursos". Essa não foi a primeira vez que a facção "trabalhou". A Parada Gay em Belgrado no domingo acabou com centenas de feridos e detidos. Os grupos neo-fascistas também estariam por trás dos distúrbios.

Em Gênova, a polícia apreendeu facas e outros objetos jogados em campo, como bombas e metais. E criticou as autoridades sérvias por não terem avisado sobre os eventuais problemas. Além disso, o temor é de que muitos estejam ligados a pessoas poderosas dentro do sistema judicial e da polícia sérvia, o que os impede de ser processados.

Ontem, o governo prometeu que tomaria medidas e pediu desculpas às autoridades italianas. Mas grupos neo-fascistas em Belgrado exigiram que os torcedores presos sejam soltos e alertaram que um "banho de sangue" poderá ocorrer se o governo seguir com a ideia de punição. "A Sérvia está à beira de uma guerra civil, enfrentamos sérios problemas sociais e as pessoas irão em número cada vez maior às ruas para protestar", afirmou o grupo neo-fascista Dveri, em comunicado. A entidade se diz protetora dos valores tradicionais sérvios, da religião e da família. O grupo pede que a sociedade volte a debater se a adesão à UE seria a melhor forma de solucionar os problemas do país.

PARA ENTENDER

Os torcedores sérvios queimaram a bandeira da Albânia no Estádio Luigi Ferraris. Um dos cartazes dizia: "Morte aos albaneses." Outro trazia: "O Kosovo é nosso." O que se viu na terça-feira, em Gênova, foi uma manifestação política. E o estádio lotado em Gênova a vitrine perfeita para o protesto dos radicais.

Na Fórmula 1 já ocorreu algo semelhante, sem violência, embora remetesse à guerra entre Turquia e Grécia, por causa de Chipre, e promovida pelos próprios organizadores do evento. Em desrespeito ao Código Desportivo da FIA, os organizadores do GP da Turquia, em 2006, escolheram o líder turco-cipriota, Mehmet Ali Talat, e o apresentaram como presidente da República Turca do Chipre do Norte (RTCN)para entregar o troféu a Felipe Massa, vencedor da prova. Como a RTCN é reconhecida apenas pela Turquia, a escolha de Ali Talat tinha como objetivo apoiar a causa política. A FIA ameaçou os turcos com a exclusão do calendário e os multou em US$ 5 milhões.

Os albaneses são maioria no país Kosovo, que se autoproclamou independente em 2008. A nação fazia parte da ex-Iugoslávia, liderada pela Sérvia.

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