Vitória construída no intervalo

Muricy Ramalho precisou de 15 minutos para mudar seu time. Os minutos do intervalo. O gol de Henrique, resultado de um escanteio, aos 37 do primeiro tempo, devolveu o Santos ao clássico e lhe deu uma oportunidade de fazer a coisa certa.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2011 | 00h00

Enquanto o Corinthians jogava coletivamente, os santistas torciam por um lance genial de Neymar, determinado a se posicionar entre as duas linhas de marcação do meio-campo de Tite. E receber a bola com espaço para exibir o que tem de melhor: velocidade e dribles com mudança de direção.

Borges manteve-se preso aos zagueiros, à espera do passe e de Alan Kardek, centralizado no meio de campo. Faltava ritmo ao grupo e envolvimento físico mais intenso para um clássico.

Os corintianos foram superiores taticamente na primeira etapa porque praticaram futebol coletivo, mostraram vigor na recuperação da bola. O time parecia ajustado às circunstâncias do confronto, não fosse o erro de posicionamento defensivo no momento do empate.

Muricy gostou da equipe no primeiro tempo, tanto que permaneceu impassível no banco de reservas até Henrique marcar. Foi quando levantou-se e preparou outro time, menos previsível, menos disposto a aceitar o jogo corintiano.

O intervalo mudou tudo, pois o Santos passou a se movimentar mais e melhor. E assim o esquema de Muricy funcionou também fora do papel e de sua prancheta, tornou-se real, com Neymar mais contundente nas jogadas individuais e com melhor posicionamento de Alan Kardek, agora disposto a buscar os lados do campo. Como na jogada construída por ele para o gol de Borges, aos oito do segundo tempo.

A virada evidenciou a intranquilidade corintiana e a incapacidade de reação da equipe, traduzida na dificuldade de manter-se taticamente organizada nos momentos mais difíceis. É visível: as jogadas migram dos lados - mesmo com um jogador a mais desde os 21 minutos da fase final - para o centro, a meia-lua da grande área. No contra-ataque, o Santos acabou com o jogo e com a paz do Corinthians.

Falcão. A notícia de que Falcão, o craque do futsal, poderá jogar algumas partidas pelo time de Muricy deixou muito torcedor eufórico. O que até parece ser uma boa ideia funciona apenas como ferramenta de marketing. A transição da quadra para o gramado não é tão simples quanto parece, mesmo para um jogador genial.

Para os garotos que praticam paralelamente as duas modalidades até os 18 anos, é muito mais fácil. Estão plenamente adaptados a ambas. Nessa etapa, é uma questão de escolha, de opção pelo caminho no qual as chances de sucesso são maiores.

Falcão já tentou o futebol profissional no São Paulo, aos 28 anos. Hoje, aos 34, vale como atração. Escolher a modalidade em que vai jogar deve ocorrer no período de formação, para as adaptações fundamentais a cada uma delas.

O senso comum, porém, ignora tudo isso. Para se ter uma noção da realidade, quando observadas as dimensões utilizadas em competições internacionais, uma quadra chega a ser oito vezes menor que um gramado de futebol. Resumindo: física, técnica e taticamente não existe comparação entre futsal e futebol.

Isso, entretanto, não tira a importância do futsal na "construção" dos jogadores de futebol, do aprendizado básico no espaço reduzido. Espanhóis e ingleses já perceberam isso. Por aqui avançamos lentamente.

Paulo César Oliveira, treinador de futsal do Corinthians, campeão mundial com a seleção brasileira, acredita que os meninos do clube poderiam ser formados nas duas modalidades. O resultado? Jogadores mais bem preparados. Pena que a divisão de base corintiana, neste momento, produza muito pouco para a equipe profissional.

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